A VERVE DE JARBAS SIEBIGER

As letras viscerais do porto-alegrense JARBAS SIEBIGER 

Uma pessoa com quem já troquei experiências físicas e psíquicas me disse que não sou deste planeta. Não posso concordar nem desmentir, minhas memórias ou foram apagadas ou recriadas. Tenho a sensibilidade do fio do aço de um punhal que acabou de sair do congelador. Quando o gume desliza na epiderme, percebo perfeitamente o nanossegundo de prazer que antecede à dor.

Eu não vim para mudar nada. Tudo que aí está continuará. Não tenho nenhuma palavra de piedade para sentimentos de autocomiseração ou para continuados lutos. Os juízos e rancores tampouco me impressionam. O calor me aborrece porque é um ladrão inapto. Não uso drogas nem bebo. Eu só preciso dos estímulos pulsantes da música. E daquela tua dança com as pupilas.


À ESPERA DE UMA CHAMADA

Então reparei na forma com que segurava o celular. A mão arqueada, que o suspendia com absoluta precisão das extremidades, permitindo que apenas um dos cantos tocasse o mármore. O cotovelo descansava no limite da mesa e fazia a cabeceira oposta dessa ponte, ornada por cintilante emaranhado de pulseiras.

A febre me desceu pelos olhos, queimando até chegar à espinha. Tentei sacar mais rápido e disparar os dígitos que fulminassem aquele visor. Neste delírio, amalgamaram-se as vibrações do seu aparelho com a convulsão dos meus calafrios.

Nem ela atendeu, nem eu pronunciaria. No encontro transceptor das pupilas, as quatro sílabas já se haviam completado...


AS MINHAS MUSAS

As minhas musas são brancas
Pálidas como páginas de um livro
Têm cabelos e pelos escuros
Pretos como a palavra impressa

As minhas musas não envelhecem
O tempo só as consagra
No âmbar de folhas guardadas

As minhas musas são cortesãs
Desarranjadas
Na realeza de uma estante

Mas basta um instante
Um perpassar de olhos por suas lombadas
Que a volúpia incontida
Na ereção do pensamento
Faz-se catarse no momento
E alguma há de ser relida

  
HIPÓTESES

Talvez
A mecânica não tenha resolvido por completo
A soma dos vetores do querer e do afeto
Mas o atrito ainda é desprezível

Talvez
Os sais da efêmera efervescência
Precipitem as partículas da razão e da consciência
Mas o resíduo será pouco visível

Talvez
A indução dos polos tenha se invertido
As vias adquirido qualquer outro sentido
Mas a corrente também é reversível

Talvez
O quasar seja um pálido reflexo
Da rutilância das auras no profuso sexo
Mas um fractal é indefinível

Talvez
O miocárdio nascera mal conformado
E à poesia caiba doar um outro lado
A rejeição? Incognoscível...


O AUTÔMATO

O autômato acorda cedo. É metódico. Registra todo o conhecimento, sem questionar o pensamento. Refuta qualquer aproximação que possa desvirtuá-lo. Há um objetivo a ser trilhado: se manter no trilho.

O autômato vence fases. O jogo é subir de pavimento. De provimento que possa retroalimentá-lo. Escreve teses para outros autômatos, que marcharão perfeitamente alinhados. Automaticamente, repetem: "Esta é a cadeia do pensamento".

O autômato se insere em qualquer meio burocrático. É corporativo e sistemático. A emoção é só um comprimido. E, depois, quem sabe, um apartamento.

O autômato não ri. O riso é sinal de fraqueza. Quando lhe escapa além do comedido, vai à oficina que repara as mentes. Aos dentes, um só direito: se encaixar aos de outras engrenagens.

O autômato é proficiente. Seduz e copula à exaustão. Pensarão: "É quente"! Quanta ingenuidade... Só o faz pela espécie.

O autômato encerra o dia: tem, pra si, que foi suficiente. E se desliga no interruptor mais próximo.


O ENCARNADOR

Especializei-me em seduzir freiras. Não são os corpos que contam, mas a ilha proibida. Apresento-me à madre superiora com as superiores recomendações de outra madre: "Trata-se de profissional sério e competente”. De resto, mulher é mulher. Gosta de galanteio, segredo e poesia. Vasculho a vaidade e o pecado se apresenta. Pecado é a palavra mais erótica que conheço. Quando no diminutivo, causa furor uterino.

As celas são limpas e recendem à pureza. "Com licença, irmã. Posso examinar o toalete?” – adentro aliciando, serviço à francesa. Se ficar à porta, observando, é caminho. Conduzo as preliminares exigidas por aquela intimidade. Calmo, preciso, sem denotar força.

Faço valer o verbo. Sutis metáforas. Das curvas de um vaso. Da rigidez de um cano. Do intercurso hidrodinâmico. Sano, saro, limpo e atiço. Até tornar-me digno de um copo d'água. Que recebo com premeditado toque. Escuso-me em versificados goles. Sorvo e me deixo sorver.

Serei reconvocado. Serviço mal feito? Nada. Inadvertido, o relógio se deixara ficar. De pulso perfumado. De horas de imaginação. Mas é homem que adentrará.

A melhor parte são os arrependimentos. Beijamo-nos e abraçamo-nos e choramos de desesperos de culpa. Fazemos pactos de mútua punição. Rezamos penitências. Nus, no catre, ajoelhados, lado a lado. Meu sexo parece, também, querer rezar. Uma segunda bem dada e toda a ladainha de novo.

Então me afasto. Saudade que se incumba e haverá tarefa.


POEMA SÓPATI

Este não é um poema
Eu não escrevo mais
E também não sou poeta

É só um teorema
De medidas inexatas
Da alma incompleta

Na íris sou meio arco
Duma ponte que balança
E o sangue é correnteza

De gasolina me encharco
Tocha viva consumando
Desejos na pele ilesa

Às vezes sou urgente
Rasante ou queda-livre
Bicadas de colibri

Ou acorde dissonante
Rajado feito vento
Solando um sambapati

•••

Porto-alegrense, aquariano com ascendente em Virgem. Colorado e maragato. Não plantou, mas aprecia, deveras, as árvores. Em especial os cinamomos e os plátanos. Gerou um filho, Júlio César.

Esparziu seus escrevinhados pelas redes. É fraco na poesia e a prosa é prolixa e soturna. Adora musas sorumbáticas. Não escreverá jamais um romance, tarefa que considera monótona e escravagista.



5 comentários:

  1. Agradeço a distinção de figurar nesta caprichada revista. Aproveito para te parabenizar, Radyr, pelo denodo e sacrifício em prol das Letras. Bem sabemos como é – embora prazerosa – árdua esta tarefa.

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  2. Gostei. Viajei por aqui. Poema e prosa afiados. Valeu, Jarbas... O mundo precisa cada vez mais de ser passado a limpo, reescrito, reimaginado. Por gente feito você. Grande abraço.

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    1. José, muito agradeço a tua presença e opinião. Retribuo fortemente o abraço.

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