A Poesia de Gonzaga Neto


ela tinha os olhos de biloca preta
dedos largos
uma cicatriz no tornozelo
e os peitos mais bonitos que eu já vi
ela fazia cálculos como ninguém
falava em público feito um político
e seu humor era fascinante
tudo era motivo de piada para sua boca aparelhada
creio eu
que se seu tórax ainda estivesse inteiro
e se seu cérebro não tivesse caído num misto de água suja com areia de rua
ela mesmo teria feito piada sobre a própria morte
atropelada por um caminhão de lixo
foi o que a irmã dela me contou aos berros pelo telefone
mas li no jornal
que no fim das contas
conclui-se que ela teve uma espécie de queda de pressão
e desmaiou enquanto passava distraidamente
por trás de um caminhão de lixo que dava ré
ela caiu no ponto cego
e todos os garis
que costumam ficar na parte traseira do carro
estavam recolhendo lixos em calçadas a frente
justamente naquele dia
ela tinha saído de casa sem comer nada
sem contar o calor de trinta e oito graus que faz as nove e quinze
numa manhã típica de verão
penso que só uma intervenção divina para algo assim acontecer assim
dessa forma tão cinematográfica
ou talvez não
lembro
que ela sempre dizia
que deixaria um legado
que o mundo inteiro conheceria o seu rosto (ou o que sobrou dele)
e não pense que estou insinuando uma tentativa de suicídio
ou que ela realmente planejou morrer dessa forma inusitada
só pra virar notícia na cnn no the sun e no programa da luciana gimenez na redetv
eu penso apenas que as coisas simplesmente aconteceram
da forma com que deveriam acontecer
com ela embaixo da roda do caminhão de lixo
um monte de gente ao redor fazendo lives no insta stories
e um cachorro observado tudo da calçada da padaria
morrer nunca foi tão glorioso
e de certa forma foi cômico
mesmo sendo a tragicidade que foi
mesmo ela desaparecendo num infinito cheio de nadas
ou rindo da própria morte
minha prima preferida me ensinou
duas valorosas lições:
a de sempre ver o lado bom e engraçado das coisas
sejam em momentos difíceis ou não
e que nunca
nunca
em hipótese alguma
saia de casa sem tomar café da manhã




estou bem
respondi ao magrelo do posto de gasolina
tô satisfeito com o trabalho
começando uma vida nova
tenho amado
fodido semanalmente
[talvez dormido um pouco de menos
e com pouco dinheiro para ir morar só]
mas mesmo assim
mesmo com a minha vó morrendo em um leito de hospital
já começo a perceber que as coisas estão dando certo
entende?

entendo
respondeu

será que é normal
[interrompi o seu raciocínio lacônico
e desinteressado]
mesmo com tudo isso
de talvez ser feliz
de talvez dar certo na vida
eu ainda sentir vontade
de me molhar com este galão
cheiinho de gasolina
tacar fogo no corpo todo
e sair correndo no meio da rua
vendo a minha pele brilhar
e refletir nos retrovisores dos carros financiados
que buzinam freneticamente para mim?

mais do que normal
doutor
[ele disse]
e não pense que está delirando
ou diferente de qualquer um por aqui
ontem mesmo
[gesticulava com mãos italianas]
pensei em fazer o mesmo que o senhor
sair peladão por aí
tocando o foda-se para o mundo
e explodir a porra toda
mas
doutor
desisti rapidinho
foi só lembrar do preço da gasolina
e de que a metade décimo
já sai no começo do mês que vem

ao perceber a confusão rodear o meu semblante
completou:

doutor
o segredo pra viver nesse mundo aqui
é não deixar a cerveja esquentar
e o preço do espetinho subir


 •

mataram dois aqui no bairro:
três tiros
um flash
e duzentas curtidas no facebook

 • 

já são quase três da noite
e apesar da chuva
o calor é intenso dentro do quarto
na cama
mastigo saliva
lambo o bico do teu peito
e transpasso meus dedos em meio às pernas imberbes
lá fora
um cachorro late no fim da rua
tão entrando na casa da esquina a dos crentes
tão levando tudo lá de dentro
o celular
o computador
o playstation dos meninos
até o aparelho de nebulização da mais nova
o pai tá apanhando feito bicho
mas não mexeram com as filhas não
existe código por essas bandas
que bandido que mexe com filha dos outros
acorda com a boca cheia de formiga
na saída
nem o vira latas se safa
leva dois tiro no meio da testa
ouço o pipoco daqui
mas já são quase três da noite
e tá chovendo lá fora
minhas coxas enlaçam as tuas
no calor
e’u penso o quanto te amo
e como amar
é ter no lugar dos olhos
dois tubos de tevê

 •

quando se ama
todo dia é feriado
dentro do peito

 •


PARA VÓINHA

as mãos que me apertam os dedos
são mãos de terra batida
de chão encerado
mãos de medo e angústia passadas
de filhos distantes
de filhos roubados
de amores perdidos
- sem perdão!
as mãos que me apertam os dedos
são mãos firmes e calejadas
mãos de quem raspa coco
de quem tem a mansidão no corpo
mesmo que as décadas lhe pesem os ombros
mãos que levaram choque
mãos partiram para longe
que encheram barrigas
e que rezam todas as noites a ave-maria
as mãos que me apertam os dedos
e tremem
me pedem para ir para casa
ainda que com as pernas fracas
ainda que com os sinais da partida
voz falha
e mundo girando
são essas mãos
que alisam os meus cabelos
e desaguam um oceano infinito

em meu peito...


Gonzaga Neto

3 comentários:

  1. Salve Gonzaga Neto com sua poesia visceral com cheiro de crônica nossa de cada dia... Aprecio demais... Mas tem horas que dá um frio na barriga... Putz, bicho...!!!

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  2. Gonzaga Neto é aquele poeta que escreve sobre o que a gente sente - ou fica com vontade de sentir. Adoro!

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  3. Amei, Gonzaga Neto. A beleza do frio real.

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