05 Poemas de Sávio Mendes


A CIDADE

As mãos calejadas,
As cicatrizes não saram
Nessa cidade de pecados

Por onde passo
Sangue-suor nas paredes,
Papéis, retalhos
E cinzas pelo chão

Vaga compreensão de tudo
Em meio ao suposto nada
Meio cheio ou meio vazio?
A vida pergunta!

A cidade é bem mais bela
No sonho da minha mãe
Adeus pássaros
Goodbye Blue Sky

Toda noite na cidade
Morro mais um dia...
Perco tempo,
Ganho história

Retalho de algo,
A cidade são as cinzas do ontem
A cidade tem fome pelo amanha
A cidade sou eu...


CÁ DENTRO

A felicidade canta lá fora.

Cá dentro,
o peito aperta
e o miolo se contorce

mais um ano,
mais um natal,
mais um punhado
de sorrisos azedos.

Cá dentro,
misturado
a uma imensidão
de códigos Java
e estruturas sentimentais
tão vazias,
caminho eu
sobre os destroços
de 2015

Os quadros pintados de cinza
em uma parede branca
deitada no chão

os abraços, os incômodos
os apertos, os amores
o pouco tempo,
o abstratismo, o surrealismo
e outros
que não conheço por nome
fazendo seu check-out
dando vaga
para outros hospedes

Cá dentro,
o peito aperta
nessa guerra fria
que ferve

Lá fora
a felicidade canta.

  
O GRANDE SACO DE AR

O grande saco de ar
Cheio de mar
Cheio de vida
Cheio de si
Onde alguém
Ainda respira

Dança entre os prédios
Empurrado pelo vento
Beijando o cinza
Como se amasse alguém

Um saco cheio de ar
Livre na imensidão
De vazios,

Livre no mundo
Onde  cores
Perdem-se
Na beleza do grafite

Um saco cheio de ar
(É! Um saco cheio)


O MESMO RESQUÍCIO

Tenho passado pelas horas
O dia com tons escuros,
A noite com sua luxuria
Violenta, fervente, sagaz

Vejo o passado bem de perto:
Uma bela moça, branca
de longos cabelos negros
Pulsante, viva, intocável

Sinto o tempo, direcionar
meus sentimentos mais imprecisos
Sinto, segundo por segundo,
O escrever me esvair

Ha males que vem para o...
É. Vem e ficam!
Intercalam o âmago e o supérfluo

O tempo me joga na encosta
Com seus lixos esquecidos
Recicla-me, em fúrias
Dezembro após dezembro

Mas em mim, no si, no profundo
Mesmo no intestino do tempo
Permaneço, em ralos escritos
O mesmo resquício fecundo.


SOPÃO DAS SETE

Havia uma pedra no meio do caminho
Entre os dedos sujos
Dos pobres anjos
Correndo para pegar o sopão da sete

O que será que passa por ali;
na aquela mente aberta,
Aquele disco quase que virgem
Carregando os dados
Desse mundo cheio de vírus

Ah pobres homens!
Compactados ,
Em pouco mais de um metro
De puro instinto de sobrevivência

Vá menino! Corre atrás
Mira essa lua que brilha pra você
Vá! Com teu colchão sujo
E teu copo de sopa.



Sávio Mendes


Nenhum comentário:

Postar um comentário