Um causo de Bob Motta ✡1949 † 2017


Em homenagem ao poeta Bob Motta, eis um dos seus causos que foi publicado no Jornal de Hoje, na edição de 16 de agosto de 2014.

Acho injusto que alguns leitores que começaram a ler minhas “fulêrage” há pouco tempo, fiquem à margem de certo tipo de munganga já contada e acontecida com esse amigo de vocês; e que jamais deve ser esquecida. Foi na década de oitenta, eu ingeria “TÔDAS”! Todas minhas fugidas da empresa do meu pai, findavam na casa de Francisco Ascendino da Silva; meu querido e saudosíssimo TEIMÔSO, ex-caldeireiro do Curtume do meu pai. Meus outros três inseparáveis companheiros eram Edvaldo Tavares, o popular Chapéu Cagado; Ulisses Gonçalves Ramos, o Véio Fulêro; e José Bento de Oliveira, Seu Chimba... Batíamos o mundo e o fundo! E em outubro, não lembro com exatidão qual foi o ano; fomos a uma romaria para Juazeiro do Pade Ciço; cujo freteiro do ônibus, era outra peça raríssima; José Belo, lá do bairro da Cidade Nova, também nosso companheiro de birita. Prá começo de conversa, nossa saída estava marcada para 18:00 Hs.; mas quando saímos, o relógio já marcava 22:00 Hs. Vejam só o lanche que levei num “depósito tuperware”: Farofa de fêjão branco cum cebola rôxa, ôvo cozido, batata doce, torresmo, carne de pôico torrada e graxa de carne de pôico p’rú cima... Eu fazia uis “canção” (bolinho do fêjão amassado c’áis mão...), tumava uma de cana e cumia o “canção ô rapôsa”... Ô sêja; cumo diz Zé Lézíin; eu era literalmente, “o presente qui Barack Obama quiria dar a Bin Laden”!... Saímos, a ruma de véia “cantando uis bindito” e a gente bebendo cachaça dento do ônibus. Quando passamos em Currais Novos, a “minha farofada cumeçô a fazê efeito” e ais véia cumeçaro a “recramá”... Amanheceu o dia e o ônibus parou de lado da rodoviária de Caicó; quando Zé Belo chegou prá mim e falou:
- Seu Bob, sinto munto, mais eu vô jogá fora o resto do seu cumê, se não o sinhô vai findá é matando essas véia, cum tanto peido...
E, ato contínuo; jogou fora o que restava da minha “cumiduria”, cum depósito e tuuuudo!... Seguimos viagem, meu bucho cumeçô a “fazê currupío”; e Teimôso, que levava um taburêtezíin daquele piquininíin, veio lá de trás e sentou no corredô, junto da minha cadeira. Já se avistava a Estátua do Pade Ciço, por volta de meio dia, quando soltei um “peido covarde”, daquele silencioso e fedorento munto além da coooonnnnta”; aí uma das véia se levantou e falou indignada:
- A pessoa qui tá dêsse jeito, divia tê cunsciênça; isso aqui é uma romaria; num é um piquinique não... Seu Zé Belo, tome uma providênça puramô de Deuso!...
E Zé Belo, se acabando de surrí, deu sua nota:
- Ôxe; e a sinhora qué qui eu dê conta do “istambo duis zôto”, ééé?
Dizendo isso e olhando prá o pobizíin do Teimôso que falou:
- Num sô eu não, Belo; é êsse nojento do bucho grande...
E aqui, acolá, um peido s’iscapulia... No Rancho Dos Romeiros, Teimôso ficou bebendo cachaça e quando foi armar a rêde, só tinha um armador. E o pobre armou os dois punhos da rêde num armador só... Drumiu sentado! Cumprimos a parte religiosa da viagem e no dia seguinte, às 18:00 Hs, saímos com destino a Canindé. O dono do Rancho foi atender umas pessoas e deixou em cima do balcão, bem perto de mim, uma peixeira e um fardo de xarque... Foi o que eu quis... Cortava a xarque, melava no açucar de um saco aberto, tomava uma de Ipióca e comia a xarque melada no açucar... Foi o suficiente para “disunerar” tudo de nôvo... E lá pela madrugada; “arriei uma sola mais pôde do qui ais ôta tudíin”... De repente; um freio brusco, o ônibus parou e o motorista exclamou “P” da vida:
- Não tenho condições!...
Aí, prá disfarçar, eu falei:
- Ainda bem que você parou; eu vou aproveitar para dar uma cagadinha no mato...
E êle; o motorista:
- Pode ir; mais o sinhô num vai cagá não; o sinhô vai mijá; cagá o sinhô vem cagando é aqui dento; desde que a gente saiu de Natal...
No outro dia, em Fortaleza; deixei o ônibus da Romaria e fui encontrar com Adele, minha mulher, na rodoviária, com quem inda passei três dias na terra de José de Alencar. Depois, já aqui em Natal, soube por Teimôso, Chapéu Cagado, Seu Chimba e o Véio Fulêro; que de Fortaleza prá Natal, as véia era tudo reclamando:
- Acabou a graça da romaria!...

Bob Motta

1949 - † 2017

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