O universo infantil na poesia de José de Castro


POEMINHA NA GARRAFA
 •
Poeminha na garrafa
foi lançado para o mar.
Longe vai este meu verso
na espuma a velejar...

Poeminha na garrafa,
meu amor vai procurar.
Sopra o vento, fura a onda,
não se deixe afundar.

Poeminha na garrafa
Veio um peixe espiar...
Curioso, bica o vidro,
cuidado, pode quebrar.

Poeminha na garrafa,
tem alguém a esperar?
Chega logo ao destino:
“Para sempre vou te amar.”

(José de Castro, in POEMARES, Belo Horizonte: Dimensão, 2007)


A COZINHA DA MARIA FARINHA

 •
É mais bonita que feia
a cozinha de areia
da Maria Farinha.

Maria Farinha
não areia as panelas
pois elas já são de areia.

Seu quarto, sua sala,
sua varanda,
tudo de areia.

Na maré vazante,
feito um laço de fita
passeia.

Eis a Maria Farinha
de avental
na sua cozinha.
Será de areia
a sua
farinha?

Que comidas
cozinha
a Maria Farinha?

(José de Castro, in A COZINHA DA MARIA FARINHA; São Paulo: Paulinas, 2012)


BAMBOLÊ

 •
Rebola, rebola
e mexe as cadeiras.
Bamboleia, bamboleia
e se sacode inteira.

Bambolê desceu,
bambolê subiu,
menina de cravo e canela
afina a cintura,
modela o quadril.

Eh, bambolê!
Quase caiu!

(José de Castro, in POEMAS BRINCANTES; Natal: CJA Edições, 2015)


O BODE

 •
O bode
come o que pode
e o que não pode.

Come capim,
come sereno,
come orvalho,
come sapato,
como blusa,
come agasalho.

Come a flor
e come o espinho,
come tudo
o que encontra
pelo caminho.

Come a erva
que medra
e come pedra.

Come a folha,
come a rolha
e a bolha de sabão.

Tudo come e consome.

Lá vai o bode,
vida afora,
comendo
feito um lorde.
E morde, tritura
e devora, inteirinha,
a lata de toddy.

E depois se sacode.

Lá vai o bode,
comendo tudo
o que pode
e não pode.

Como é que pode?

(José de Castro, in A MARRECA DE REBECA; São Paulo: Paulinas, 2002 e Recife: Bagaço, 2015)


HOJE É DOMINGO

 •
Hoje é domingo
tem briga de gringo.
O gringo é briguento,
bateu no sargento.
O sargento é abusado,
brigou com o soldado.
O soldado é baixinho,
apanhou do vizinho.
O vizinho é ignorante,
bateu no elefante.
O elefante é ruim de briga,
apanhou da formiga.
A formiga é valente,
quis brigar com a gente.
A gente é de paz,
brigas nunca mais.


(José de Castro, in VACA AMARELA PULOU A JANELA; Belo Horizonte: Dimensão, 2017) 

2 comentários:

  1. A gente sonha, brinca e viaja na Poesia do amigo querido José de Castro

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  2. Muito bom!! Uma viagem brincando nos poemas do amigo José de Castro. Muito bom!

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