Entre ser semente e as semeaduras • Suzana Rabelo


Antes de ser eu, eu era a filha, o rebento; antes de filha pai e mãe;
daí para frente a vida não me pertence-ia, mas a eles; ao homem!
Antes de ser homem eu era planta, era rocha, era ar, terra...
Agora sou uma pedra nos sapatos apertados, mal calçados, enfeitados
com as cores que desejas encontrar em teu caminho;
eu sou o sozinho na multidão;
ou certo seria dizer: a multidão no sozinho?
Sou o fio desfiado neste muro de lamentação...
Sou o cisco no olho, vesgo, quando finge não ver;
sou a pálpebra cansada desta visão;
sou sangue pisado; mangue;
sou o bisão perdido na história de glórias da humanidade;
sou as luzes da cidade, acesas, enquanto o sol não vem...
Sou todas as canções que tu não aprendeste a ouvir!
Enquanto me limito em minha pele, como reles, que, sou, perambulo
no aparente embaralhado infinito espaço sideral.
Eu sou as margens de um livro marginal;
entrelinhas das notícias mal contadas no jornal!
Azar o meu que aprendeu ainda cedo a ser assim, meio sem rumo, prumo
eu diria, espacial.
Eu sou normal, embora não pareça, não te esqueça
e como tu não consigo ver, ainda que pressinta, o meu destino,
no tempo em que a terra reivindicar a água dos meus ossos; e,
apenas por isto, posso, penso; eu não pertenço ao mesmo altar...

Este, que sangrando, tu insistes em exaltar!

Suzana Rabelo

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