Endomingado • Valdeci Almeida


Pra onde vais, domingo?
Pra onde não irás...?
Tua casa é refúgio seguro?
Segunda está na sombra do sol
E pode  se infiltrar.

Vista a tua melhor roupa
E fuja a tempo.
E melhor que corras
Pra que não morras
Na praia e causes em cascata
Aberturas de portas e janelas,
Plantão nacional.

E melhor que saltes,
Brinques, mergulhes, escorregues, balangues,
Assistas na tevê em preto e branco...
A volta
Para a tua infância
E na mesa mais farta da lembrança
Te lambuzes de macarronada e frango
De domingo!

E melhor que te embriagues por lá
De tubaína, coca-cola, guaraná
E fique adormecido,
Escondido no canto mais oculto
Para que segunda e seu tédio adulto,
Terça, quarta, quinta, sexta...
Não te encontre nem pra remédio.

E melhor que rasgue todos os dias do calendário
E deixe que sangre seu vermelho
Na canela ferida pela entrada dura
Na pelada do campo de terra.

E se decidires sair da toca do ócio
Saia só para um pretérito mais longíquo

Vá à missa matinal desse domingo
E, no cochilo mais profundo do sermão,
Encontre Deus exausto da recriação
Do mundo.

E a Ele suplique um espaço para o descanso
De um domingo assim suturado
Na rede da
Lua crescente...


Pede cachimbo. 

Valdeci Almeida

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