Carmen - Guilherme Cavalcante



Teus olhos são cacimbas d’água salobra. Salgado e doce. Olhos dúbios. Tu és ambígua, Carmen. E eu? Eu sou inteiro sempre! Ou caos, ou ordem. Quando entro em combustão, explodo! Quando sou calmo, atinjo o estado do pleno. 
Mas tu, Carmen... tu és o avesso e o direito. Ordem e anarquia. Céu e inferno. Sempre. Ao mesmo tempo. E sendo assim tu te constróis e me destróis e torna a me montar. E com isso vem aos meus lábios o ímpeto de um grito. Uma palavra de comando aos berros. Mas travo. Teu magnetismo é irresistível, tira-me de órbita. Quase perco o rumo. Quase me perco nos teus devaneios e nesse teu sorriso bambo de dentes alvos, delineado, trituradores. 
Sempre cultivei extremos alargados ao limite do intenso. Não gosto de indecisões. Ou suo de calor, ou tremo de frio. Mas tu... tu és o próprio calafrio que assalta a pele ao meio dia. Tu és o meio e não é equilíbrio. És descompasso. Tens o passo mole e carnes rijas. Carmen, poesia em latim. Carmen, prosa ao meu ouvido. Carmen, teu corpo é um amontoado de sinuosidades, cantos e arestas e eu aqui, embrenhado em decifrar o que você nem entende bem, mas é. 
Por fim, eu que ou sou nunca ou sou sempre, resvalo no quase. Culpa sua, oh ingrata. Tu és o meu desatino. Um universo paralelo e dominante. Uma imensidão infinita chamada Carmen.

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Guilherme Cavalcante

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