A poesia do Bar do Escritor


Cadernos
Cristhina Rangel
-
Meus sentimentos não ficam à margem 
Nas margens sangram, deliram, escandalizam
Os meus orgasmos e risos soltos 
Eu feito louca, eu feito chaga
Eu no efeito de uma overdose 
De analgésicos e pó de pirlimpimpim 
As contrações de um parto sofrido 
Gerando versos controversos 
Criando outras de mim
Na palidez da folha, folha ao vento 
Outono de amores morrendo 
Primaveras frias sem jasmim 
E eu dama de uma noite na vida dele
Ele inventado à margem da minha realidade 
Minha vaidade em sentir, 
Cada pena à caneta fazendo chorar e sorrir 
Eu virando páginas e rostos
Na última página o arrocho do mês 
Na ponta do lápis, 
Os danos divididos por três 
Em um só segredo rabiscado
"Eu morrendo a cada dia poeta 
Para eternizar sonhos em poesia.." 
A frase deixada para ser posta 
Em minha lápide fria...


Quando éramos humanos
Helenice Helen Priedols
-
quando éramos humanos
eu consultava a lua
sobre nossas almas perdidas
na hora da ceia imperava respeito
pelo vinho e pela carne
percorria-se a solidão em alta velocidade
e nada era escrito 
já que tudo estava nos olhos
éramos bons e gentis quando humanos
as manhãs acordavam presságios de liberdade
o amor transitava satisfeito e dono de si
os espelhos sorriam à nossa passagem
e os milagres chegavam a horas marcadas
quando éramos humanos
bastava um aceno de mão 
para acender o arco-íris
e era sempre verão
com direito a brisa marítima 
quindins, céu azul e ginga no andar
éramos pacíficos e abnegados quando humanos
as crianças adormeciam satisfeitas
das brincadeiras e festividades
não se perdia o tempo
pois era sempre presente
suficiente para fazer valer o dia
e no silêncio das montanhas
guardávamos as rezas e o caminho das estrelas
naquele tempo não havia o ofício de poeta
entre nascer e morrer
poetas éramos todos.


Poemas de parede
Jota Brasil
-
Uma menininha
Um menininho
Um coração no meio dos dois
Balões... Passarinhos... O sol...
Poesia concreta,
abstrata
lembranças da infância
de poemas desenhados na parede.



Sal 
A Fernando Pessoa
Ruth Cassab Brólio
-
Vagas
neste mar escuro
entre clausura e a loucura
de que todo ser padece
em cada vida,
a seu muro.
Se Fernando
já não importa.
A Pessoa fechou-se a porta
para o ego personal.
O sal, de outra tessitura,
em areia boa,
umas nem tanto,
sempre em vagas, à procura
de algum paladar sutil, 
que dele faça a leitura.


Presságio
Paulo Miranda Barreto
-
tenho fé de que nem vou acreditar
quando vir o céu ruir 
e o chão tremer
quando vir o seu castelo desabar
quando vir o seu poder 
desvanecer
eu nem vou acreditar mas, hei de ver
sua trama desfazer-se 
e fracassar. . .
sua claque, seus asseclas a gemer
vendo o circo pegar fogo 
e evaporar
acredite em mim, não ouse duvidar
pois assim será 
(ou haverá de ser)
e a mesóclise que desfazer-se–á 
soará como um delírio
démodé.


Finalidade
R.Rochha
-
Busquei caminhos férteis e céu sem nuvem
que me limitaram e desiludiram-me na ânsia
de levar adiante sonhos premeditados...
Senti então, que nada conseguiria sem luta... 
E não foram facilidades que me promoveram!
O pó de que sou feita, não admite nuances coloridas e sutis,
há de ser sólida construção e viver vias mais restritas
para que não se desfaça em desesperanças e desilusões!
E os restos... ah os restos, não são exatamente restos,
são os primórdios de algo mais sustentável,
daquilo que primei como finalidade,
não me baseando em fruir somente estrelas,
mas romper tempestades em determinado céu e no meu tempo...


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