Sonetário I


9
-
uso humor, ironia e certezas
(aliás, como todo vivente)
meu cigarro, algum entorpecente
e a garrafa de vinho na mesa

pra amansar pela noite a tristeza
que ameaça ficar evidente
esse aperto, o cansaço crescente
que me oprime, me acusa e despreza

uns remédios, meu medo da morte
uns contatos, a tela-transporte
e um soneto sem cor nem emenda

é o que tenho pra abrir uma fresta
nessa angústia que dita palestras
e não ser como a dor recomenda

-
Nilson Vieira Moreno



VI
-
NOS BOSQUES, perdido, cortei um ramo escuro
e aos lábios, sedento, levantei seu sussurro:
era talvez a voz da chuva chorando,
um sino fendido ou um coração cortado.
Algo que de tão longe me parecia
oculto gravemente, coberto pela terra,
um grito ensurdecido por imensos outonos,
pela entreaberta e úmida escuridão das folhas.
Por ali, despertando dos sonhos do bosque,
o ramo de avelã cantou sob minha boca
e seu vagante olor subiu por meu critério
como se me buscassem de repente as raízes
que abandonei, a terra perdida com minha infância,
e me detive ferido pelo aroma errante
-
Pablo Neruda - "CEM SONETOS DE AMOR"



Hipotenusa
-
O traço da mi'a vida hipotenusa
nas rimas mal inclusas nos sonetos
que passa por quartetos dor difusa
na rota que recusa o ângulo reto
No vértice aberto está intrusa
a escrita que desusa o obsoleto
quadrado dos catetos soma escusa
a linha que acusa o longe e o perto
Nem sempre que aperto parafusa
sequer encontro musa nos tercetos
nem sempre que eu tento sou esperto
Nos versos encobertos está confusa
a letra inconclusa pelos ventos
traduz seu comprimento em dialeto.
-
Wasil Sacharuk


Nirvana
-

Teus lábios, em perjúrios e gemidos,
Versejam como em forma de oração.
Descerram-se as cortinas da libido,
Tu unges minhas curvas com tuas mãos.

Calor do ventre teu nas minhas ânsias
Inflama nossos corpos que se arvoram,
Envolvem-se e preenchem reentrâncias,
E em êxtase teus beijos me devoram.

Os músculos que moldam tua nudez
São másculos, são fortes, sumarentos.
Me guardas e eu sei que não te cansas

Dos frêmitos e abraços sonolentos.
Ao fim dessa sublime e insana dança,
Repousas em tua plácida altivez!

-
Magmah




Soneto enlatado
.-
De Curitiba, o Capitão América
Lança o escudo no cocão de quem 
Diz que o Pré-sal é reserva estratégica
Não pode ser entregue por vintém.
Mas essa caça às bruxas tão frenética
Torna-se nula quando ao réu convém
Comerciar a matriz energética,
Vender seu povo a quem lhe pague bem.
Repete-se o filme e nem espelhos
Trouxeram dessa vez para nos dar.
Agora toda a culpa é dos vermelhos...
Novela com enredo de chorar. 
O herói-galã deixou-nos de joelhos
E do Pré-sal já podem nos salvar!

Edy Gonçalves



Não-soneto Esquizo-dadadodecassílabo Pobre de Rima
.
Alvissareiro, o pedreiro filosofa o comércio do amor
Cachaceiro, o tesoureiro vaticina a vacina contra a dor
Matreiro, o vaqueiro tosquia a ovelha do pastor
Brejeiro, o cordeiro ludibria o astuto pensador
Canibalista, o hindu rumina a musical oração
Humanista, o soldado prepara a miraculosa poção
Demonista, o santo apregoa as pregas do sacristão
Fetichista, o exegeta ejeta na aorta o sabão
A Pangéia doente vomita proletários
Tapuias hasteiam a divinal bandeira
Os farrapos devotos da Régia Cangaceira
Riso escarninho, safadeza e: que otários!
Os suados gravatas bravatas crocitam
Fodam-se os asnos que nos criticam
-
Carlos Cruz



Soneto meu, (ou soneto do dia seguinte).
.-

Encontrei mil motivos para amá-la,
E nenhum deles me prendeu a você.
Parti da mesma forma que cheguei,
Na esperança de ainda ser feliz.
Olhei para frente e também para trás,
Mas o caminho já era metade e segui em frente.
Dava mais segurança que recomeçar a mesma mentira,
Com a mesma pessoa traindo-me no que acredito ainda.
Acredito que quem vem lá,
É quem imito quando vou,
E o encontro não será casual.
Talvez aconteça um “oi” um “olá”,
Talvez nem nos percebamos,
Então outro dia irá amanhecer.
.-

Paulinho Dhi Andrade


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