A Poesia de Nildinha Freitas


O caminho

No caminho
Encontrei pedras
Bichos peçonhentos
Bichos nojentos.

À estrada
Foi me fazendo
E eu fui fazendo ela.

Engoli goela adentro
Os restos
E as sobras.

Fui o prato principal
Na mesa de gente do mal
Fui sendo comida
Pelas beiradas.

Hoje beirando os quarenta
Pareço uma senhora de noventa
Sou uma velha marrenta
Somente quem me ama
Me aguenta.


A benção

Quando eu era bem menina,
Minha vó vinha me visitar,
Trazia na mala dela,
Brinquedos e balas de canela.

Minha vó vinha de longe,
Mais de hora de viagem,
Ela vinha olhando a paisagem,
Esperando logo chegar,
Para a saudade matar.

Assim que Vovó chegava,
Na porta assobiava,
E quando eu a escutava,
Corria e lhe abraçava.

Saudades eu carrego comigo,
Saudades do seu sorriso,
Saudades da sua voz rouca,
E do seu jeito de dizer sem falar,
Que me amava
E sempre iria me amar.


Escadas

Sangrando,
Eu subo um lance de escadas, 
Na pressa eu não olho,
Não vejo quem está na calçada.

O coração coitado,
Parece que vai sair pela janela,
Pulsa a mais de mil por minuto.

O pulso vai ficando lento,
E eu vendo a minha vida passar,
Fracionada.

Vejo-me menina, 
Vejo-me sendo amada.

Meus olhos rasos d'água,
Com medo de desaguar.

Quase morrendo,
Tremendo por dentro,
Derramando-me por fora,
Sem ter o que fazer,
Fico,
Não vou embora.


Nostalgia

Hoje acordei nostálgica
Lembrando do primeiro beijo
Que você me deu.

Acordei lembrando você
Invadindo meu corpo
Fazendo-me conhecer
Os detalhes da sua pele
Branca e macia.

Hoje acordei sentindo falta
Sentindo falta de mim
Sentindo falta de ser sua morada.

Acordei com uma vontade de dizer:
Ah meu amor
Sou nada sem você.

A cor do amor

É azul a cor do amor
Azul feito céu
Azul feito o mar
O mar de maracajaú

É azul a cor do seu beijo
Pintei de azul o seu desejo
E azul é a cor do seu êxtase
A cor da explosão
Do nosso amor.



A escravidão

Há quem seja escravo do outro
E que ofereça a autorização
Permitindo que lhe façam
Viver em total submissão.

Cala quando não concorda
E não tem opinião.

Há quem se escravize
E jogue fora às chaves
Da própria prisão
E que por medo de ser livre
Escolhe viver na escuridão.


Oco

Sinto um vazio
Dentro de mim
Um oco.

Sinto um buraco
No espaço negro
Dos meus pensamentos.

Sinto o mundo
Dentro de mim
Mas não me sinto
Não me acho.



Perdão


Perdão por eu não ter lhe dado
Todo o amor
E por ter sido mais razão
Do que emoção.

Perdão por eu ser assim
Tão sem jeito
E por ter desfeito os seus planos.

Perdão por eu ter mudado a rota
E ter feito o caminho de ida
E não o de volta.

Perdão por eu ter me tornado outra
Totalmente diferente
Daquela menina inocente
Que você amou.

*****

            Nildinha Freitas é poeta, escritora, administradora de empresas e historiadora, e tem dois livros do gênero poesia, lançados pela Chiado Editora em Portugal, Brasil, Angola e Cabo Verde, além de ter textos publicados na Antologia Poética Essências e em revistas literárias, como a Revista de Ouro e a Revista KUKUKAYA
            O seu primeiro livro é intitulado Atenta Ativa, lançado em junho de 2015 e o segundo é o livro Simples Mente lançado em novembro de 2016.
            A escritora é membro da SPVA-RN (Sociedade dos Poetas Vivos e Afins) do estado do Rio grande do Norte, membro fundador (a) da SPVB- Sociedade dos Poetas Vivos Baixa-verdense, e é membro do NELCP- Núcleo de Estudos em Literatura e Cultura Potiguar do IFRN.




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