2ª Encontro de poetas - Poetas de hoje e de ontem em um único espaço


Um lavrador no campo da solidão
Valdeci Almeida
-

I
A solidão é edível
Nesses páramos verdejantes
Onde os dias pascem
A esperança
De girassóis floridos...

Posso prová-la,
Poesia agreste,
Num solitário canto
De palmeira e sabiá...
Fiapos de sol
Na manga madura
Que lambuza a boca
Do menino que fui,
Que ficou
Perdido no
Esconde-esconde da vida
No recôndito dessas jângalas.

II
Viajei só
Nas águas da imaginação
O sólido nunca saiu do lugar.

Ainda que eu fosse ao mar,
Visse outros mundos...
Manter-me-ia enraigado
A essas pedras
Cultivando o pão!

Inda nas safras
Que a terra aqui
Nada produz,
Necessário é
Separar os sonhos do joio,
Arregaçar as mangas,
Semear o coração.

*****

A Rua dos Cataventos
Mário Quintana
-

Da vez primeira em que me assassinaram,
Perdi um jeito de sorrir que eu tinha.
Depois, a cada vez que me mataram,
Foram levando qualquer coisa minha.

Hoje, dos meu cadáveres eu sou
O mais desnudo, o que não tem mais nada.
Arde um toco de Vela amarelada,
Como único bem que me ficou.

Vinde! Corvos, chacais, ladrões de estrada!
Pois dessa mão avaramente adunca
Não haverão de arrancar a luz sagrada!

Aves da noite! Asas do horror! Voejai!
Que a luz trêmula e triste como um ai,
A luz de um morto não se apaga nunca!

******

Giz
Ruth Cassab Brolio
-
Esgueira-se e deita de lado
o dia que chamei de amado
no bocado da boca da noite.

E escorre pela pia
o fio longo do cabelo
desse emaranhado novelo
nomeado família.

Os restos densos da mobília
ficam nas filhas mais velhas
que possam cuidar dos ritos.
O raro cubo de ar, ontem era lar
empoeira-se pelas frestas
de gavetas vazias.

Reviro e me miro insone
como a sombra, a sósia, o clone,
entorno do outro eu
da ilha que foi feita de mim.

E pairo solta acima do quarto,
no espaço desenho o arco
de incompletude
-o traçado a giz-
entre o que pude e o que fiz
entre o que quis e o que faço.

*****

Dá-me tua mão
Clarice Lispector
-

Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

*****

Fuga Interna
Judi Mac Iris
-
Em fuga do meu próprio eu
parti desesperada
para o íntimo de mim mesma.
Fechei os olhos para o mundo
procurei ver o universo do meu avesso
Calei minha voz, e no silêncio
deixei falar o meu coração
Cerrei os ouvidos para a hipocrisia
Tentei ouvir a voz da minha consciência.
Nua, de minha própria ausência,
mergulhei no fundo de minha alma.
Dentro do meu peito
meu coração se inflamava de amor
minha saudade doída
consolava minha dor
Meus sentimentos em conflito
agitavam o meu pensamento
Na garganta, preso o grito,
era só um triste lamento.
Enquanto eu me procurava,
O perdão secava as lágrimas
do meu pecado que chorava, e
aos meus tormentos,
colocava um fim.
Meus olhos, perdidos no labirinto
de mim mesma, brilharam
quando acharam o caminho de volta,
E, eu corri ao encontro de mim.

*****

Palavras
Sylvia Plath
-
Golpes
De machado na madeira,
E os ecos!
Ecos que partem
A galope.

A seiva
Jorra como pranto, como
Água lutando
Para repor seu espelho
Sobre a rocha

Que cai e rola,
Crânio branco
Comido pelas ervas.
Anos depois, na estrada,
Encontro

Essas palavras secas e sem rédeas,
Bater de cascos incansável.
Enquanto do fundo do poço, estrelas fixas
Decidem uma vida.

(tradução de Ana Cristina César)


*****
  

Organizando o livro
Nilson Vieira Moreno
-
eu quero pedir-lhe, meu caro colega
que baixe meu livro, acessando este link
e leia tranquilo, tomando seu drinque
na noite em que tarda e seu sono não chega

ou vá lendo aos poucos, enquanto navega
(o tempo permita que estude, ame e brinque)
depois, abusando, eu lhe peço isso: assim que
cansar da leitura, me diga onde pega

se é tosco, se é brega, agradeço algum toque
se fiz do meu livro diário ou palanque
por certo houve equívoco estúpido, só que

nem sempre é tão fácil que a gente se manque
por isso eu pensei: é melhor que eu convoque
alguém pra ajudar, pois sozinho está punk.

*****

A Rua
Torquato Neto
-

toda rua tem seu curso
tem seu leito de água clara
por onde passa a memória
lembrando histórias de um tempo
que não acaba

de uma rua de uma rua
eu lembro agora
que o tempo ninguém mais
ninguém mais canta
muito embora de cirandas
(oi de cirandas)
e de meninos correndo
atrás de bandas

atrás de bandas que passavam
como o rio parnaíba
rio manso
passava no fim da rua
e molhava seu lajedos
onde a noite refletia
o brilho manso
o tempo claro da lua

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão
ê parnaíba passando
separando a minha rua
das outras, do maranhão

de longe pensando nela
meu coração de menino
bate forte como um sino
que anuncia procissão

ê minha rua meu povo
ê gente que mal nasceu
das dores que morreu cedo
luzia que se perdeu
macapreto zé velhinho
esse menino crescido
que tem o peito ferido
anda vivo, não morreu

ê pacatuba
meu tempo de brincar
já foi-se embora
ê parnaíba
passando pela rua
até agora
agora por aqui estou
com vontade
e eu vou volto pra matar
essa saudade

ê são joão ê pacatuba
ê rua do barrocão.

*****


Corpo
Paulo Moraes
-
Tiro em riscos limpos
A forma do teu retrato.
O carvão define o corpo,
O papel recita a linha
E a mão ensina o traço.

Os cabelos em cascata
Na curva do teu ombro,
São ondas derramadas
De luz e de assombro.

Sobre o dorso delineio
Meus suaves devaneios.
Com esfuminho eu repasso
A poesia do teu ventre,
Pra cantar o teu regaço.

No torneado da cintura
Crio sombras sussurrantes
Que deslizam pelas coxas.
É a imagem mais precisa

Que escapa do meu lápis.
E depois dessa jornada,
Uma coisa eu te suplico,
Abriga esse andarilho
No calor do teu abraço.

*****

Poema de Sete Faces
Carlos Drummond de Andrade
-

Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

*****

Meus Versos
Nair Damasceno
-

Meus versos
Nasceram da minha dor,
Da minha alegria,
Da tristeza na saudade
Em um momento de felicidade;
Gerados em minhas entranhas
Nasceram numa dor tamanha...
Meus versos
Respiraram vossos olhos
Vossa alegria, vossa dor
E cresceram Poesia.
Meus versos nasceram de mim
Cresceram com os sentimentos vossos.

Meus versos, Poesia
Já não são só meus,
São nossos.



4 comentários:

  1. honrado pela inclusão do meu humilde texto o CORPO...e quanto aos demais poemas... posso dizerq ue li todos...uns, reli...está ótima a edição...

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  2. Uma revista bonita como esta só poderia ser obra das mãos do Poeta maior: Radyr Gonçalves! Muito feliz por ver meus singelos versos ao lado dos consagrados! Obrigado.

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  3. Parabéns Judy,e maravilhoso e merecido estar seu poema nesta revistadeouro
    Muito linda sua poesia, parabéns amiga.

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  4. Parabéns Judy,e maravilhoso e merecido estar seu poema nesta revistadeouro
    Muito linda sua poesia, parabéns amiga.

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