A redenção - António Patrício


A divina emoção que tu me deste,
Já m´a deu uma árvore ao poente...
Não é só teu encanto que te veste:
A seiva e o sangue rezam irmãmente.

Às vezes nuvens, mares, areais,
Dão-me mais sonho do que os olhos teus...
É como se eles fossem meus iguais,
Tendo nós todos fé no mesmo Deus...

Não será isto o instinto, a profecia,
De que desfeitos e transfigurados
Viveremos num só, numa harmonia?...

Sim, deve se: amor, sonho, emoção,
São esforços febris d´encarcerados
Para quem a Unidade é a redenção.
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António Patrício
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Escritor e diplomata português, natural do Porto. Frequentou a Escola Naval, acabando no entanto por se formar em Medicina, em 1908. Proclamada a República, foi cônsul na Corunha, em Cantão, Manaus, Bremen e outras cidades, vindo a falecer pouco depois de nomeado ministro de Portugal em Pequim.

Como escritor, convergem em António Patrício tendências simbolistas, decadentistas e saudosistas, a que se alia a influência do niilismo de Nietzsche, nomeadamente na recusa de uma finalidade da vida exterior à própria vida. Esta concepção, alheia à metafísica, conjuga-se com um certo panteísmo, na vivência de cada momento perante a omnipresença da morte (a obsessão dos corpos cadavéricos, por exemplo), numa intensa espiritualidade que se manifesta em motivos como a saudade e as contradições e dualismos do homem (finitude e infinitude, carne e espírito, insaciabilidade do donjuanismo), na ânsia nostálgica de absoluto, por exemplo, no amor. Esta tensão trágica é servida por uma escrita de profunda sensibilidade e ritmo poético, numa linguagem de forte carga musical e imagística que o aproxima do simbolismo.



Colaborador das revistas Águia e Atlântida, escreveu os livros de poemas Oceano (1905) e Poesias (1942, edição póstuma), tendo ainda sido editada a sua Poesia Completa (1980). Publicou um livro de contos, Serão Inquieto (1910). É também autor das peças de teatro O Fim (1909), Pedro, o Cru (1918), Dinis e Isabel (1919) e D. João e a Máscara (1924, o ponto alto da sua carreira, que toma como personagem principal o célebre D. Juan), e ainda dos contos de Serão Inquieto (1910). Deixou várias obras inéditas.

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