A alma do negócio, poesia! Paulo Miranda Barreto



Da infância á adolescência,

pela inteira ausência de melhor negócio,

eu fiz o meu ofício vir do ócio.

Fui cão roendo os ossos de um ofício.


Por insuficiência de mais vícios

ou por ter vários deles como sócios

pendi para a indecência e pra malícia

(ou pra docilidade menos dócil).


“Virei poeta, né?” Parece fácil,

se dito assim com muita displicência.

Mas foi com abundância de suplícios,

submergindo em mares de emergência.


Entrei na fase adulta com indícios

notórios de uma humilde prepotência,

caçando lucidez pelos hospícios,

me enchi de paz, ciência e paciência.


Coando e decorando a incoerência

e predisposto ao gosto por resquícios,

fiz versos com excessos dessa ardência

que abunda em sonhos sub-reptícios.


Especializei-me em penitências,

que ser poeta é mais que um sacrifício.

É sacro ofício afeito á irreverências

É sacerdócio e exício fictício.


E cá estou ileso e capadócio,

no mais pleno exercício da existência.

Unido á poesia num consórcio

em que há de tudo menos reticência. . .
                               

E hei de envelhecer sob os auspícios                             

dessa união feliz e sem prudência,

que é infinita ,excita os reinícios

e ferve no fervor da efervescência!
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Paulo Miranda Barreto



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