A POESIA DA MINEIRA LÁZARA PAPANDREA

Conheça melhor a Poesia da Poeta mineira LÁZARA PAPANDREA 

METAMORFOSE 
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Descamo-me desta pele
e das outras que a circundam até dar num osso branco
(branco de doer os olhos de tão branco)
-Já tentei o abismo e me perdi na fundura e na rasura-
 Osso branco descascando, descascando, e eu... só baba!
 A ideia da raspagem já me cura.

Osso branco seco, sumindo na minha fissura por ossos bem raspados
Ossos brancos sucumbidos à vontade de limpar o âmago de mim de tudo que já me habitou.
Osso branco oferecido ao deus do esquecimento
Depois, uma licença para imergir nas águas do Lethe
e colher a minha flor da escuridão.

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A PEDRA
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Penso a pedra, pálida
Partícula de tudo
Ventrículo do nada
Estática, desarrumada
Penso a pedra aprumada
olho cego, cavas vagas
com gosto de cascatas
e sangue de ventos batidos.
Penso-a ali presa aos ruídos
do que flui
Como uma hera que se dilui
ao sal dos tempos.

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MARIANA, MAR.
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Eu quero escrever e não posso
Eu quero esquecer e não posso
Só sei estender gravuras mortas
Sobre o pálido asfalto desse dia de lamas e memórias de mar...
(Eu queria amar, e não posso, o mar, pai nosso. )
Eu queria amar e não posso remapear o mar.
Eu quero
Eu queria rememorar o mar que amei azul,
sem lama
sem tempo
sem sal
Mas, os lençóis de mar- que também sei céu e terra-
Estão sujos de lama e não há mais ouro e nem janelas.
Nem há cama ,Mariana, para deitar os mortos das pálidas gravuras,
Que estendo sobre o chão do seu quarto minguante de amor.

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ORAÇÃO:
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Doai-me luz
Espírito Santo dos não convertidos
Para que eu suporte estes zumbidos
Este caos instalado no sentido dos dias
Esta Roma em fogo por sobre meus ombros
Estes escombros de dor martelando-me o cérebro
Estes monstros que pregam o uso de minhas mãos
Para o torpe
Põe ordem na casa dos meus sentidos
E esclareça-me por que culpam os Amarildos
Por que morrem os Amarildos
Por quem morrem os Amarildos
Para que não haja mais choros, nem rangidos
Neste inferno por onde transitam os homens.

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DÚVIDAS:

Ainda não sei o que sinto
Se frio Chuva Ou labirinto
Ainda não sei o que minto
Se trigo Tigre
Ou Minotauro
Ainda não sei o que calo
Se minha mão
Ou teu falo
Ainda não falo o que sinto
Ainda não sinto o que falo
Ainda não grito
Ainda não saro.

Saiba mais sobre Lázara Papandrea...

( Lázara Dulce Ribeiro Papandrea, graduada em História pela Universidade do Vale do Sapucaí e pós graduada em Teoria Literária pela Universidade Federal de Juiz de Fora, coautora no livro de poemas "Exercícios de Olhar" editado pela FUNALFA em 2011, participou da antologia poética "Juiz de Fora ao Luar" pela Gryphon Edições em 2015 e lançou em janeiro de 2016, pela Penalux, "Tudo é Beija-Flor", escreve regularmente no blog: www.vestesdepalavras.blogspot.com

2 comentários:

  1. Sensibilidade e uma profunda intuição da simplicidade das malhas que tecem nossa trajetória.

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  2. Lázara expõe até o osso todas as possibilidades do verso. Sempre instigante seu texto.

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