Você precisa conhecer a poeta baiana Luíza Oliveira


O que me resta
*

Resta então o frescor de liberdade,
o vento gelado  no rosto
os pedaços de vida, da irreverente vida que acabou jogando-se ao lixo,
as borboletas azuis e vermelhas voando num céu caramelo,
o inverno dos vencedores com o inevitável encontro com os frios de alma.

As hortênsias azuis com gotas gélidas do orvalho,
encostadas no desfiladeiro, acobertadas pelo sol pálido de fins outonais,
os suplícios e suplicantes de almas condoídas
garantias efêmeras dos girassóis da Rússia...

Assovios  velados de mocinhos e bandidos,
o beijo molhado do fantasma solitário,
um canto da vida escondido em um  resto de mundo,
o lamuriar dos ventos segredando tristezas  de árvores distantes
outros povos, outras  pegadas desconhecidas

Resta-me o resto
Do meu rosto
Dos meus sonhos
Daquilo que me prometi
E não fiz, nem sei porque

Um amor roto
Uma meia sem par
A antiga loucura que jamais abandono
Mais dois tostões de vida
E um campo florido de toda esperança.


-
As chaves da casa
*

Me despeço de árvores secas, sem frutos...
De frutas apodrecidas jogadas ao lixo
de amigos maledicentes
de falsos torneios de futebol
dos amores em vão.
Vou buscar graciosidade em têmporas rosadas
 de bebês solitários.
Desabotoo o botão da blusa rasgada
e deslizo no escorregador do parque infantil.
Ouço soluços ao longe.
Caminho desajeitadamente entre prantos
e luzes da ribalta.
Tento escalar montanhas
e desfaleço com açoites do tempo,
a  neblina da madrugada me impede de enxergar.
Meu corpo está enxertado de lâmpadas queimadas.
Refaço a lição de casa e afirmo: dois mais dois,
são cinco.
Me desfaço de professores e ensinamentos antigos,
entro em pirâmides egípcias
e ensaio peças de figuras da literatura clássica antiga.
Me apodero dos fragmentos de gênios atormentados,
sonho com Van Gogh
e decepo meu desamparo inútil.
Sou levada Grécia pelas mãos de Zeus e Afrodite,
sou encurralada no cordão carnavalesco da alegria
e rebolo desajeitadamente.
Vou passear na antiguidade
e sou levada ao pelourinho,
entro no santuário e me extirpo de toda a punição
loucos com baba, seres sem identidade
andarilhos são arrastados em  feiras de inutilidades,
tento permutar feijão por rosários,
sou apunhalada por povos bárbaros e caio desfalecida.
Acordo em delírios,
gargalho e caio no chão.

-

Carnificina
*

E da carne se fez verbo
a carne esponjosa, sobressalente, rompida
de desejos perfurados,
de crateras sensoriais,

No ritual dos desejos, cumprimos ordens,
catalogando o ser sensorial,
envergamos nos espasmos, caindo nas encruzilhadas...
fraturamos areias movediças, entre sevícias e perícias,

Em sucumbências universais, em dívidas de mea culpa,
atravessamos camadas dos sentidos, perfuramos crateras sensoriais,
criamos robustos seres, escravos...

Em estadias  controvertidas,
caímos na perdição dos sentidos,
do limo perdido,
e o mundo se fez em uma só carne,
carne carnificina.


Luíza Oliveira


Saiba mais de Luíza Oliveira
LUIZA OLIVEIRA, poeta baiana, advogada, atriz, bailarina e socióloga. No teatro, já trabalhou com diretores como Antunes Filho e Naum Alves de Souza. Em 2011 lançou seu primeiro livro de poesias, Afetos Transgressores. O segundo, que deve se chamar Da menina que virou bicho está em fase de negociação com editoras. LUIZA OLIVEIRA está na 55ª postagem da série AS MULHERES POETAS...Se quiser ler mais, clique no link http://www.rubensjardim.com/blog.php?idb=42947


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