Você precisa conhecer o poeta paulista Heberton Baptistela


Poema Gramatical
 *
Você é
Tão verbo
Eu, meio
Substantivo...
Mas eu anseio
Ser adjetivo
Da tua excitação

Só, sou
Sujeito simples
Do lado teu
É o oposto
Viro eu
Sujeito composto
Da tua combustão

Sinta a
Sintaxe:
Meu objeto direto
É o teu verbo
De ligação.
-

Entrevista com um pássaro



 *
Um pássaro e seu canto são dois bichos,
Dois seres um no outro elaborados.
Mas se o pássaro é bicho que se olha
& o canto bicho que se escuta,

Quantos encantos são contados
para medir um canto em sua ave?
Onde começa ave e termina canto
Se é o canto que alça voo para fora de seu pássaro?

Preso, uma vez, o canto alado
O pássaro, transmuda-se em gaiola?
E pode um pássaro engaiolar seu canto?

Inútil torna-se a entrevista sem respostas
Quando tanto pássaro, como canto,
Enterram-se no azul.

 -
Poema de Inexistência
 *
Este poema não existe.
Talvez. Por quê.
O homem tenha sido criado
À imagem, à semelhança
E não só, mas também
À imaginação
De um ser,
Que pode ser,
Superior ou inferior
Ao próprio ser humano.

Este poema não existe.
Talvez. Por quê.
As cores que você enxerga
Não são as mesmas cores
Emitidas a lampejos
Pela matéria.
Assim, o preto no branco
Qual você vê agora,
Simplesmente não o é.
E seu cérebro
Vai te enganando
Nesta eterna
Ilusão de ótica.

Este poema não existe.
Talvez. Por quê.
Este planeta já tenha explodido
E as luzes
Transcendentes
Espaciais
Da estrela Terra
Estejam chegando
Somente neste momento
A outro mundo
E assim, somos apenas
Um passado
Que já não existe mais.

Este poema não existe.
Talvez. Por quê.
A vera literatura
Componha-se apenas
De um faz-de-conta
Baseado tão perfeitamente
No que já existiu
Que faz de você
Uma personagem
De uma boa prosa
Que acredita
Que está lendo
Esse poema agora
Enquanto em um
Uni. Verso.
Para lê-lo,
É você quem está
Sendo lido nesta hora
E assim,
Este poema não existe.
-

Soneto de Perda Total
*
E de súbito, minha boca perdeu o teu riso
E o meu riso perdeu os teus dentes
A minha amizade perdeu os teus entes
E os meus entes perderam o teu sorriso

E os meus dedos perderam teu entrelaço
E os meu entrelaçar perdeu a tua mão
E a tua casa já não tem mais os meus passos
E os teus passos perderam a minha direção

Como teu peito perdeu minha vontade,
Minhas camisas perderam os teus seios
E em teu seio já não importo tanto assim

E a minha distância já não tem tua saudade,
E minha saudade perdeu os teus anseios
E os teus anseios já não falam mais de mim...


Nascimento

É, eu vivi
Quando a mim deram a luz
E os meus olhos abertos
Puderam ver.

Mas eu nasci
Quando me tiraram o capuz
E os meus olhos descobertos
Puderam ler.

-
Heberton Baptistela


Heberton Baptistela, poeta minúsculo, contista menor e professor de literatura. Nascido em São Paulo capital, reside hoje em Ourinhos, cidade do interior paulista. Para o autor, atingir o embrião letral das palavras é uma coisa de lúcidos: “quem atinge o embrião letral das palavras, atinge a lucidez e passa dizer o indizível para que se possa entender o que não pode ser entendido”.  Participou da antologia premiada Galinha Pulando de 2014, lançada e publicada no Brasil e em Genebra. Em 2015 publicou o livro “Geração Haikema” pela editora Penalux. Diz que quer morrer de poesia crônica.



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