Um olhar distante - Ricardo Dantas


As terras sempre seriam boas para o cultivo de manivas. Mel, encontrava-se com fartura nas densas matas serranas. Os animais existentes saciavam praticamente todas as necessidades. Igarapés e cachoeiras propiciavam diversão, conforto e subsistência. Pataa' Maimu havia sido generosa. Sempre fora generosa. Porém Paapa travava, de forma irredutível, afrontas para com a Mãe Natureza. Por capricho, ou quem sabe porque deveria assim ser, Paapa estabelecia que os povos nunca pudessem desfrutar de seu paraíso privado com serenidade plena. Pataa' Maimu, quem sabe, aproveitava o ensejo para pequenas punições. Não teriam zelado do presente satisfatoriamente? A vida se resumiria a breves gerações de calmaria? No senso de justiça, até onde suportar seria possível? A Natureza, sábia, daria o sinal.
A virtude da inocência não transcreve a barbárie reincidente. Entretanto, prescreve a brandura da equidade bárbara, uma permanência transcendental. Difuso e obscuro, as eras, configuram-se em uma constante imutável.
Estavam três macuxis ajoelhados, com as mãos atadas nas costas, os rostos irreconhecíveis pelos hematomas. Os karaiwas bradavam a nova lei das terras altas. Seria mais uma ira de Paapa? Por que motivo Pataa' Maimu não estava protegendo-os? Mereceriam tal punição? Seriam os karaiwas detentores das terras por direito, já que eram possuidores da força injusta e lhes faltavam escrúpulos?
Os macuxis, que estavam em pedestal, aguardavam o veredicto final. A cada disparo, efetuado à queima roupa em suas cabeças, um a um, como lágrimas ante o horror, caiam ceifados. De um lado a aldeia, reunida em assembleia como era de costume, mas para uma nova pauta, a submissão. No outro extremo, os karaiwas, com armas em punhos e mandados tendenciosos, concretizando as profecias de outrora, de que os “bichos” reduziriam os nativos a pó. Bichos, a representação de um povo que demarcava o território com sangue.
Crianças assistiam a cena. Crianças de ambos os lados. Crianças não mais crianças. Uma com lágrimas nos olhos. Outra esboçando um leve sorriso. Crianças não mais vizinhas. Uma das crianças caía no solo arenoso da savana, manchando o capim de púrpura... Os questionamentos cessariam. A dúvida permanecerá.
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Ricardo Dantas Biólogo e escritor
Amajari, 19 de agosto de 2014.


Um comentário:

  1. Os seus escritos nos mostram uma realidade que não conhecemos: a da população indígena do Brasil. Gosto muito.

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