Poema de uma ser atônito - Alphonsus de Guimaraens Filho


Se com mil torpezas
é que me ferisses,

se com punhaladas
fundo me atingisses,

se com verbo duro
mais me desgastasses,

e com risos, mofas,
me dilacerasses,

se me destruísses
noutras asperezas

que vincam a alma
mais que a exausta carne,

se a abusões medonhas
tu me destinasses,

se vinda de ardis
torvos e nojentos,

me estilhaçasses,
me despedaçasses,

todo me cuspisses,
todo me humilhasses,

eu, o cego e o amargo,
eu, o estranho e aflito,

que já fez da vida
um único grito,

que já fez de quanto
doado lhe foi treva,

a mais rude treva
de que sorririas,

eu te perguntara,
e nem saberias:

se me sufocasses,
se me alucinasses,

para que milagre
me despertarias?

© Alphonsus de Guimaraens Filho

In O tecelão do assombro 

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