Para não mais falar de amor... - Radyr Gonçalves de Araújo


... Decidi rumar minha prosa para algo distante do conceito de amor. Cavalgar outros nichos de forma que eu saia do tédio obscuro dessas letras que vão rasgando o peito como se rasga uma folha de papel inútil. É inútil falar de amor quando se ama sozinho, ainda mais quando esse amor cabe apenas e tão somente nos versos tortos de um infeliz poeta. Lembro que escrevi encantadores versos sobre borboletas e mariposas, nuvens e balões etéreos... Lembro do caderno cheio de letrinhas cursivas, bordadas magistralmente com letras de pequenas belas canções desentoadas... Eu acreditava no amor, assim como o pescador acredita no mar. Assinava com a mão o percurso das estrelas cadentes tão somente para registrar as juras feitas naquelas noites coloridas. Sou um bobo feito. Um insensato semeador de ternuras. O mundo não sobrevive de ternuras e afetos, o mundo é mais concreto, mais prático, mais violento. Eu falava de orquídeas e gérberas, de prosa e poesia, de cinema e novela, de arte e cama... A vida é drama sofrido, filme apressado, esquecido, mãos que desandam, pés que não conseguem chegar junto ao ponto final... Acreditava no amor como o relojoeiro acredita na prontidão das horas. Decidi descambar minha prosa para outros roteiros. Há cais desertos, mares abertos, mundos incertos e um universo de temas que podem ser abordados numa prosa...Falarei então da política.

... A política é um caso de amor antigo e...

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Da Série
Prosador das Horas

Radyr Gonçalves de Araújo
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