O mistério das orações - Luljeta Lleshanaku


Na minha família
as orações eram ditas em segredo,
suavemente, murmuradas sob cobertores por
narizes obstruídos,
um suspiro antes e um suspiro depois
finos e estéreis como um curativo.

No exterior da casa
havia apenas uma escada de madeira
para subir, encostada à parede durante todo o ano,
pronta a usar em Agosto para reparar as telhas antes das chuvas.
Nenhum anjo subiu
e nenhum anjo desceu –
somente homens sofrendo de ciática.

Oravam para obter um vislumbre Dele
na esperança de poder renegociar contratos
ou adiar prazos.

"Senhor, dai-me força", diziam eles
pois eram descendentes de Esaú
e tinham que se contentar com a bênção
deixada por Jacob,
a bênção da espada.

Em minha casa, rezar era considerado uma fraqueza
como fazer amor.
E tal como fazer amor
era seguido pela longa

noite fria do corpo.

-
Luljeta Lleshanaku


LULJETA LLESHANAKU (ler Liublieta) nasceu em Elbasan, Albânia, em 1968. Cresceu sob prisão domiciliária durante a ditadura estalinista de Enver Hoxha, o que comprometeu o início dos seus estudos. Quando o regime caiu, em 1990, cursou Filologia Albanesa na Universidade de Tirana, tendo a seguir trabalhado como professora, editora e jornalista. A sua poesia destaca-se de entre a mais recente poesia albanesa pelas fortes imagens, humor e sensibilidade, e por uma particular enfâse na condição humana no leste europeu. Os três poemas que se seguem são versões que trouxe do inglês, retiradas do seu livro “Child of nature” (New Directions, New York, 2010), traduzidos do albanês por Henry Israeli e Shpresa Qatipi. Uma extraordinária descoberta, penso eu, uma excelente surpresa. Com a devida vénia:

Nenhum comentário:

Postar um comentário