Cego alimentando pombos - Charles Simic


Onde arranjou ele essas migalhas?
Lança-as à esquerda e à direita
Enquanto os pássaros rumam a ele,
Um deles pousando em seu ombro.

Alguns dias depois tive a resposta
Numa padaria onde apareceu
Para recolher cacetes antigos,
Agradecendo a toda a gente.

Ainda ontem à noite pensei nele
Sentado numa cama estreita
Partindo pão com suas mãos

A não ser, claro, que estivesse morto.
-
Charles Simic


O último livro de CHARLES SIMIC (Belgrado, 1938), poeta que foi assunto para três anteriores posts no Poesia Ilimitada, intitula-se “Master of Disguises” (Houghton Mifflin Harcourt, Boston, 2010). Uma vez mais, no seu estilo sintético, condensado, eliptico, o norte-americano desafia a nossa percepção da realidade ao aludir ao melífluo e ao ominoso que existe num quotidiano aparentemente inocente. Eis, com a devida vénia, quatro poemas do seu último livro, onde é particularmente evidente a força das suas imagens enigmáticas e paradoxais, súbitas e inconclusivas.

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