A Professora de Caligrafia - Zulmar Lopes


As letras saiam desenhadas em nanquim, faceiras, estilisticamente formosas, espalhadas com elegância pelo envelope. Cada convite de casamento seria endereçado à mão graças ao artesanal trabalho de Gertrudes. “Caligrafia é a arte não da boa escrita, mas da bela escrita!” - costumava exclamar em relação ao seu ofício enquanto manejava com perícia o bico de pena.

Finalizou mais um envelope da encomenda de trezentos. Um sorriso de indisfarçável orgulho com a própria obra escapou dos lábios. Quando não estava ocupada em dar forma aos anúncios das bodas de gente em sua maioria desconhecida, Gertrudes ministrava aulas de caligrafia, tentando tornar legíveis os garranchos produzidos por jovens imberbes, donos de uma escrita estragada pelas intermináveis horas em frente à tela de um computador. Ensinado, a professora lamentava a quase nula preocupação da juventude em escrever direito. Era do tempo da “letra de moça”, uma qualidade bem vista na sociedade.

“Sou uma peça de museu...” - pensou enquanto finalizava mais um envelope. Fechou o rosto. “Preocupo-me com coisas sem a menor importância hoje em dia”. Já não era mais um pensamento e sim um murmúrio a serpentear pelos cômodos do pequeno apartamento em um conjunto residencial financiado pelo BNH e comprado à custa de inúmeras noites em claro, desenhando letras nas mais diversas encomendas. E não eram só convites. Cardápios, certificados, diplomas, logomarcas e monogramas. O computador quase extinguira sua profissão. Tudo já saia pronto daquele cérebro eletrônico. Gertrudes nutria asco por computadores.

A campainha soou, trazendo-a de volta à realidade. Sobressaltou-se numa ânsia freada. Gertrudes era uma mulher contida, não convinha extrapolar sentimentos, ainda mais na sua idade. Atrás da porta certamente estaria o Teixeira. Familiarizara-se com os três toques breves da campainha, inconfundíveis, sua “impressão digital” pré-anunciada. Estranhou que ele não houvesse ligado antes, sempre telefonava. “Quisera lhe fazer uma surpresa? Teria vindo terminar o relacionamento?”. Suspirou.

Gertrudes abriu a porta e sorriu de modo incerto para o amante. Ele beijou-a na testa como fazia há cinco anos. Entrementes, colocou a maleta na mesinha de centro. A mesma maleta de cinco anos atrás, depositada na mesma mesinha, mesmo beijo na testa, tudo sempre igual. Teixeira sentou-se no sofá. “Agora ele vai bufar, dizer que está ficando velho e pedir um copo d’água.” - pensou a professora munida de desconsolo no olhar.

— Filha, pegue um copo d’água para mim. Estou ficando velho para suportar este calor – disse o amante entre bufos.

Ela voltou da cozinha com o aguardado copo de água nas mãos, ofertando-o ao amante que o sorveu em um único gole, estalando os dentes em resposta prazerosa. Gertrudes odiava aquele comportamento. Às vezes se perguntava por qual motivo ainda estava atada a um homem sem modos e, pior das heresias, casado. Inventou uma desculpa qualquer e foi ao quarto onde, sentada em frente à penteadeira, desfez o coque. Alguns fios de cabelos brancos teimavam em desfilar nas pontas das raízes. Andava desleixada ultimamente. Por quanto tempo Teixeira ainda a desejaria? Dois, três anos antes que o seu corpo já sem atrativos murchasse de vez?  Tentou maquiar-se da melhor maneira possível, no intuito de se tornar atraente para o amante em visita não programada.

Teixeira penetrou no aposento sem pedir licença. Através do espelho da penteadeira, Gertrudes observou a audácia daquele homem, senhor de um castelo que não lhe pertencia, crente em possuir prerrogativas de mando em razão de aplacar, vez por outra, os desejos de uma anacrônica professora de caligrafia passada dos sessenta. Ele a abraçou pelas costas. Um cheiro de cigarro e gel de cabelo agrediu-lhe as narinas, mas o contato do amante em seu corpo, a troca de calores, o desejo em ter-se nos seus braços peludos para um outono de amores que já se anunciava fez Gertrudes ceder. Deixou-se levar para a cama.

Após terem apagado a mútua chama dos prazeres, Teixeira disse estar com vontade de comer bolo de laranja. Tal pretensão era novidade para Gertrudes. Em geral, ele virava de lado e, no aconchego dos lençóis que ela zelava em manter alvos para recebê-lo, desmaiava em sono profundo feito guerreiro repousando depois de feroz batalha.

— Sabe fazer? - Perguntou Teixeira, mãos acariciando as costas nuas da professora cujas sardas brotavam, dia após dia, marcando a pele, anunciado o seu envelhecer.

Em resposta, ela levantou da cama e vestiu um roupão. Leve arfar indignado emanando das narinas. “Teixeira quer bolo de laranja. Que pedisse a maldita esposa!” - ruminou enquanto lavava as mãos contaminadas pelos fluídos do ato consumado que ainda os unia.

Na cozinha, Gertrudes catou os ingredientes. Faltava a essência de laranja. Descobriu uma de baunilha, com prazo de validade próximo do vencimento. “Serve.” - concluiu. Gastou poucos minutos descascando as laranjas e outros tantos batendo a mistura no liquidificador, preocupada com os convites que dormitavam à sua espera na escrivaninha. Da sala, os rosnados de Teixeira e o cheiro do tabaco delatavam a quase nula presença do amante. Ouvia-se ainda o burburinho de vozes que o televisor regurgitava. Ela suspirou e procurou dedicar-se ao preparo do bolo. À medida que a massa ganhava forma, Gertrudes foi tomada por um sentimento de entusiasmo por sua criação culinária. Até que não era de todo ruim poder cozinhar para o seu homem. Ali mesmo, nas redondezas, havia várias mulheres à sua semelhança, mas carentes até mesmo de um Teixeira cheirando a sarro de cigarro e gomalina. Ao menos nisso era uma sortuda: tinha alguém, ainda que pela metade. Com tais pensamentos girando na mente, o primeiro sorriso honesto germinou dos lábios da professora de caligrafia desde que o amante tocara a campainha naquela tarde. Deixou de lado as inquietações acerca do trabalho acumulado na escrivaninha.

Em três quartos de hora o bolo estava pronto. Substituídos pela fragrância de laranja que a iguaria emanava, já não eram os cheiros de cigarro e gel que impregnavam o apartamento. Gertrudes se permitiu até uma centelha de felicidade enquanto contemplava o Teixeira mastigar com entusiasmo a fatia por ela servida. Comia diante de TV, prato pousado na mesinha de centro e, entre um e outro intervalo comercial, pedia novo pedaço, não se esquecendo de elogiar o talento da professora para os assados.

 E assim o fim de tarde se espreitou pela janela da sala do apartamento de Gertrudes, trazendo consigo os primeiros sinais da noite. Teixeira, alegando ter que partir, levantou-se e foi ao banheiro. Urinou ruidosamente. Ela detestava aquele barulho de urina em contato com a água do vaso sanitário. O amante gemeu, bufou mais uma vez e deixou o banheiro abotoando as calças, afivelando o cinto.

Foi então, no momento em ela ainda cogitava se o amante lavara ao menos as mãos, que a diminuta esperança de num futuro tê-lo por inteiro ganhou um fim, pois Teixeira, saciado em luxúrias e vontades gastronômicas, ordenou-lhe enquanto vestia o paletó:

— Filha, embrulha o que sobrou do bolo. Carmela adora bolo de laranja.
Nem mesmo uma bofetada magoando sua face teria causado maior humilhação à professora. Ela, mulher lutadora, que gastara a juventude rabiscando letrinhas em convites, diplomas e envelopes para conquistar um apartamento popular num subúrbio da cidade, fora relegada a quituteira da esposa do amante. Lágrimas ameaçaram rolar de seus olhos, mas Gertrudes as estancou. Ela era uma rocha. Não demonstraria fraqueza diante do responsável pelo seu desgosto. Fungou para que a voz não saísse modulada pelo choro abortado e perguntou:

— Carmela não vai desconfiar se você aparecer em casa com um bolo pela metade?
Teixeira desdenhou:

— Que nada! Eu digo que foi um resto de lanche que o pessoal do escritório comprou na padaria ao lado. Embrulha logo, ô Gertrudes, que eu já estou atrasado!
A professora espartanamente recolheu o prato de bolo e carregou-o para a cozinha. Do interior de um armário sacou um rolo de papel laminado para fazer o embrulho. Nunca o mundo lhe pareceu tão injusto. “Quituteira da esposa do amante! Quituteira da esposa do Teixeira!”. Tais palavras davam piruetas dentro do seu cérebro, envenenado seus sentimentos. Encarou o bolo, quase pela metade, sobre o papel laminado. Cuspiu em cima da cobertura cristalizada. Uma cusparada onde estava depositado todo o seu ressentimento, todo o seu rancor. Terminou o pacote e, em seguida, levou-o de volta para a sala entregando-o ao Teixeira que, já de pé e maleta na mão direita, beijou-o a testa como sempre fazia e arrastou seu corpo através do umbral da porta. Gertrudes ainda observou-o entrando no elevador que o sugaria de volta para a esposa.

Novamente só, ela sentou-se diante da encomenda de envelopes. Tomou na destra o bico de pena. Desta feita, as letras saíram trêmulas, imprestáveis, lembrando a grafia de um recém-alfabetizado. Chorou copiosamente. “Vou comprar um computador.” - decidiu entre lágrimas e narinas assoadas. Aos poucos, retomou o controle dos nervos e a grafia voltou a ser aquela elogiada pelos clientes.

Trabalhou com dedicação até às nove horas da noite quando lembrou que precisava fazer as compras da semana. Há duas quadras do apartamento existia um supermercado que fechava às dez. Rabiscou no verso de um dos envelopes alguns mantimentos, enfiou no corpo um vestido, no ombro direito sua bolsa, limpou os resquícios de lágrimas do rosto e foi enfrentar a rua.
O contato com o ar noturno pareceu limpar seu ranço de mulher mal-amada e enfurnada em casa. No caminho para o mercado chegou até a desconfiar que certos gracejos emitidos do interior de um boteco das redondezas foram a ela dirigidos. Chegando ao estabelecimento, espantou-se com a quantidade de clientes àquela hora da noite. Lembrou-se então da véspera de feriado. “Que cabeça a minha!” – lamentou o esquecimento. Percebeu que sua vida resumia-se a letras de copista, alunos desinteressados e a esperar pelo Teixeira.

Fazia suas compras pesquisando com cuidado preços, datas de validade, composição dos produtos. Gertrudes era atenta a detalhes e não se deixaria iludir pelas multicoloridas gôndolas de supermercado confundindo clientes. Na sessão de produtos para festas, avistou um pequeno vidro de essência de laranja. Seus olhos umedeceram. Colocou o produto dentro do carrinho de compras.

Empurrando o carrinho entre corredores abarrotados de gente, a professora notou meio escondido no setor de inseticidas um frasco de raticida. No rótulo, o desenho tosco de um rato com duas cruzes na altura dos olhos. Tomou em mãos o frasco e leu com atenção o rótulo. “Veneno em pó”. Pareceu refletir por instantes sobre a necessidade da compra. “Serve!” - decidiu. “Há um rato importunando meu lar. Come da minha comida e leva as sobras para sua toca. Da próxima vez, preparo uma armadilha em forma de bolo de laranja...”


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Zulmar Lopes

2 comentários:

  1. Muito bom! Ficarei atenta, nada de bolos de laranja ou outro qualquer!kkkkk

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  2. Muito bom! Ficarei atenta, nada de bolos de laranja ou outro qualquer!kkkkk

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