Teia - Mell Shirley Soares


Não vi a culpa chegar com o inverno da noite passada. Pus o ouvido no coração e escutei teu nome ao longe, quando o meu grito ecoou tua ausência.
Já não há mais espaço nessa cama para o nosso esforço e 'a.n.f' não transpira mais sabor. Nas tábuas que pisamos, escrevemos a história de nossos dias; o café frio no bule impregna a casa toda de densa melancolia, e o cigarro aceso traga a última loucura da nossa fala.
Mantenho-me sóbria - o vinho da discórdia guardo para quando a dor pretender me assaltar de vez - embora parte de mim conheça a embriaguez da aranha-do-tempo, que tece sua teia em meus descaminhos por pura bondade dedicada. Não lamento. Só observo os pássaros no céu. E reconheço, rendida à minha dor, que no amor, apesar de minha revolução emocional, contudo, ainda sou assombrada pelos mesmos medos de sempre. E sempre, por sina, serei.
Porque de ruínas sou feita e a beleza da tragédia da vida se perpetua em minhas colunas retorcidas. Do combate, não tenho medo.

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Mell Shirley Soares

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