Poema do fim - Marina Tzvietáieva


Como a pedra afia a faca,
Como ele desliza a serragem ao varrer,
Assim, a pele aveludada
De súbito, entre os dedos. Úmida.

Oh dupla coragem, sequidão -
Dos homens, onde está você,
Se em minhas mão há lágrimas
E não chuva?

A água é da fortuna
O que mais poderia querer?
Se teus olhos são diamantes
Que se vertem em minhas palmas,

Já não perco
Nada. Fim do fim.
Carícias, abraços
- Eu acariciava tua face.

Assim somos, orgulhosos
E polacas – Marina -,
Quando chove em minhas mãos
Olhos de águia:

Você chora? Meu amor,
Meu tudo: me perdoe.
Pedras de sal
Caem em minhas mãos.

Planto de homem, veia,
Na cabeça recostada.
Gritos. Outra te devolverá
A vergonha que te fiz deixar.

Somos dois peixes
Dos meus – meu – seu – meu mar
Duas conchas mortas
Lábio contra lábio.

Todas as lágrimas.
sabor
Um oráculo
- O que acontecerá
quando
Despertares?

( Marina Tzvietáieva)

Marina Tzvietáieva (1892-1941) – Nome central da moderna poesia russa e européia, colocou-se em sua poesia contra a Revolução Russa e, mais tarde, contra o fascismo. Ao ver o marido ser fuzilado e a filha mandada para um campo de concentração, suicidou-se. – Poemas da autora saíram em ”Poesia Sempre” n. 7, em trad. de Augusto e Haroldo de Campos (Fundação Biblioteca Nacional, fax 0/xx/2l/220-4173).

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