Peregrino - Radyr Gonçalves de Araújo


Eu não tenho endereço certo. Vivo aberto. Entre um voo e outro encho alguns galhos de ninhos. Desforro meus conceitos, ando nu. Andar nu é como voar. Não conceituar certos pontos nos eleva. A sobriedade de pensar na morte como capítulo final é sempre parte da contemplação diária de um peregrino. Livrar-se desse inferno, dessas dores transitórias, das cicatrizes mapeadas no lombo, do chicote invisível, da mão assoladora que nos esbofeteia constantemente – é uma dádiva. A morte é uma canção triste necessária. Eu não tenho roteiro certo. Mas conheço bem as vias por onde irei passar... São apenas estradas repetidas. Todo caminho é igual para quem minora o mal com o sorriso manso. E a mansidão é a maior arma de uma fera. Quem não tem poso certo, tem que levitar, plainar suave, dançar a dança da aldeia que passar. Chorar com as carpideiras. Sorrir com os palhaços... Nunca contar os passos, evitar os embaraços e sempre, sempre caminhar... Sempre. Sem olhar pra trás.

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PROSA NUA

SANTA CRUZ, 05 DE MARÇO DE 2016

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