Nada é o que parece - Tiago Oliveira/David Moura



“- Eu farei com que vos cale!”
Disse o avô de Jimmy Cliff
Lendo um livro hebraico em braile
Nas vielas do Recife…

Ele ouvia roucas vozes
Dos longínquos albatrozes,
E os julgava possuídos
Pelas almas vingativas

Das canções das grandes divas
Do baião dos tempos idos…
Nisso passa por Cervantes
Que entornando um copo cheio

De misturas borbulhantes
Logo diz de modo feio:
“- Velho doido da moléstia,
Vós não vedes que essa réstia,

Que julgais de mau agouro,
São fantasmas numa dança
E até vejo Sancho Pança
Com seu vil gibão de couro!”

Dostoiévski, mais sensato,
Escutando a tal palestra,
Disse assim, lambendo o prato:
“- Não ouviram essa orquestra?

É Beethoven ouriçado
Convocando pro tablado
Gonzagão que lhe escarnece…

E ao que tudo me comprova
Eis aí a grande prova
De que nada é o que parece…”

-
David Moura e Tiago Oliveira

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