A Poesia Aglaia Sousa

                                           
GOTA DE BARRO

Criação. Criar do nada —
do quase nada —, do barro.
Esbarro nas palavras,
criando barreiras,
barrancas, barragens,
diques, comportas estanques,
tanques, água, limo, barro.
Esbarro outra vez na terra.
Molhada. Pingada. Suada.
Um pingo que cai. Uma gota de barro.
Criada. Sem forma. Só som.
Da queda. No barro.


CANTARIA

Estou indo bem mais velha:
Maranhão me envelheceu.

Suas ruas, suas casas,
onde o passado ainda mora,
criaram raízes, lianas,
azulejaram as paredes,
ruíram caibros e tetos,
musgos nasceram nos becos.

Estou levando comigo
Maranhão feito em pedaços.

Suas pedras, suas portas,
seus licores, suas frutas,
camarões, peixes enormes,
a fala mansa, sem pressa,
os livros (tantos poetas!),
seus rios cheirando a mar.

Estou indo assim saudosa
do tempo do Maranhão.


MARCHÉ AUX PUCES

Eu troco várias luas
pelo sol
pelo brilho
pelo azul.

Permuto muitas noites
pelo verde
pela tarde
pelo dia.

Cambio toda a terra
pelo ar
pelo vento
pelo mar.

Escambo esta chuva
pelo canto
pela dança
    pela praia.


CANTABILE

O chão canta
um canto de dor
se passa, rasteiro,
passageiro cantor.

A voz leve
enleva e some:
só fica nos ares
um aroma e um nome.


IMPROVISO

A doçura da fruta,
o amargo retrai.

O veludo do musgo,
a rusga desfaz.

O macio da flor,
o espinho contrai.

A cantiga do rio,
a onda refaz.

-
Aglaia Sousa


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