A poesia de Bernarda Ferreira de Lacerda



Oh! Se minha ventura,
Eliano deserto,
Tão desejado bem me concedera,
Que na densa espessura
Do teu céu encoberto

Em ócio branco e doce paz vivera,
Gozando de um retiro
Por quem suspiros dou, e em vão suspiro;
Que ufana, que contente
De tudo me apartara
Por chegar a gozar tal paraíso,
Onde, do mundo ausente,

Segura sempre andaria,
Dando ao bosque alegria, aos campos riso,
Livre de sobressaltos,
Porém não livre o céu de meus assaltos!
Quem de pombas tivera
As asas voadoras,

Que sobre teus penedos subira!
Quem n´elles estivera,
Não momentos, mas horas,
Não horas só, mas annos, sem que vira
Fim a tão feliz sorte,
Senão com o da Parca mortal corte!

Os altos medronheiros,
Que com corado fructo,
Estão seus verdes ramos inclinando
Por cima dos outeiros,
Me dariam tributo
Para que fosse a vida sustentando,
O que hervas ajudaram,
Quando fructas agrestes me faltaram.

As fontes crystalinas,
Que rindo se despenham
Por entre musgo pardo e grama verde,
Abrindo ricas minas
De prata com que despenham
A quem ganhando alento sede perde,
De néctar excelente
Me dariam docíssima corrente.

As frescas espadarias,
Que os lírios se cobrem,
Me puderam servir de branco estrado,
E as relvas que ufanas
Mil boninas encobrem,
De livro, onde vive deixado
Do autor da Natureza
A providência, amor, graça e beleza.

-
Bernarda Ferreira de Lacerda

Nenhum comentário:

Postar um comentário