PARA MEU PAI ◄ CLAIRE FELIZ REGINA



(Para meu pai que foi embora de casa quando eu ainda era bem pequena)

Pai Quando você estava vivo pai muitas vezes eu quis dizer que te amava.
Mas dizer como se você não me escutava.
Agora que você não está mais aqui não pode mais me ouvir...
Ou pode?
Então vou falar:
Porque enquanto você estava aqui eu nunca disse que te amava?
Porque eu nunca te achava.
Porque você nunca estava perto de mim.
Você não vivia pra mim.
Você não existia pra mim.
E eu aquela criança que tanto te procurava.
Sem saber o que fazer – chorava.
Sofri muito.
Sofri a sua ausência, a falta da sua bênção de que eu precisava tanto.
E quem eu tinha para me consolar?
Apenas o meu pranto.
Crescendo achei melhor negar esse amor.
Achei melhor dizer que não te amava mais.
Foi essa a maneira que eu encontrei
Para suportar a falta de um colo seguro, de um abraço apertado, de um beijo nunca encontrado, mas que eu queria demais.
Mas hoje no dia dos pais esse amor veio a tona e eu não posso mentir mais.
Tudo que eu disse é mentira.
A verdade Pai é que eu sempre te amei e ainda te amo demais.


DA SÉRIE ERÓTICAS


04 Poemas de Jeanne Araujo 

Transe

Vilipendiada por tuas mãos
por tuas palavras e teu sexo
ultrajada até não mais poder
vi-me despojada de mim mesma.
Então acendo fogueira
danço em transe
e transo.

Meu gozo é meu rito
e agonizo em tuas chamas.


Gozo

Ao cair da tarde
tenho um rosto antigo

As estacas do tempo
cravadas na tarde
ardem voluptuosas
na lisura das ancas
no limo dos ossos
na ânsia do gozo.

No dentro e no fora
no fora e no dentro
sem muita demora
enquanto devoras
minha carne-unguento.


Cabala

Quando arqueio as costas
vibro igual violino
e mesmo as amarras
mordaças e estacas
não me bastam.

A voz, a tua, arrepia
as porcelanas, os quadros
e estremeço
onde o corpo se contrai.

Meu horror é teu mandamento
consentido em meu corpo inteiro.
Se preciso eu uivo, sibilo
acendo tua vela, teu pavio, tua adaga
porque és armadilha de cilício
no meu ventre.


Gotas

os pingos túmidos
que brilham em meu rosto
são gotas de quem me habita
e escreve na pele
a ferro e a fogo
elegia sagrada

e eu, curvada sobre pêndulo
ferindo-me no êxtase
doendo-me nos vãos
desembocando-me em extremos
contorço-me
enquanto sua escrita hieróglifa
desenha delicadamente
sobre meu rosto
membros, falos, grutas e fendas.


UM POUCO DE FLORBELA ESPANCA

Uma das maiores escritoras portuguesas, Florbela Espanca trouxe para a Literatura temas como amor, erotismo e angústia.

Florbela d’Alma da Conceição Espanca (1894-1930), nome adotado por Flor Bela Lobo, foi uma poeta/poetisa e um dos mais importantes nomes da Literatura Portuguesa. Florbela abordou temas como amor, erotização, angústia e sofrimento, trazendo a figura feminina para suas obras.
A poeta portuguesa teve duas antologias publicadas em vida: Livro de mágoas (1919) e Livro de sóror saudade (1923). Outras três foram lançadas postumamente: Charneca em flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934). Além da poesia, a autora portuguesa escreveu para jornais e traduziu obras literárias.

Primeiras obras

Nascida em Vila Viçosa, na região centro-sul de Portugal, Florbela perdeu a mãe muito cedo. Filha ilegítima de João Maria Espanca, foi registrada como se tivesse pai desconhecido e com o nome de Flor Bela Lobo. No entanto, João foi responsável por sua criação junto com a esposa, Mariana Espanca.
Entre os anos 1899 e 1908, Florbela frequentava uma escola em Viçosa e, nessa época, já começou a escrever seus primeiros textos. Até então, assinava seus trabalhos como Flor d’Alma da Conceição.
Florbela escreveu seu primeiro poema entre 1903 e 1904: “A vida e a morte”. Na mesma época, fez um soneto em homenagem ao seu irmão Apeles e um texto para o aniversário do pai. O primeiro conto escrito por ela foi “Mamã!”, em 1907, sobre sua mãe biológica, que morreria um ano depois.
Mais tarde, em 1916, a jovem Florbela fez uma coletânea com 85 poemas e três contos, textos que integraram o projeto “Trocando olhares”. A poeta não teve sucesso nas tentativas de tornar sua obra conhecida, mas o que foi escrito serviu de base para trabalhos futuros.
As primeiras vendas de Florbela aconteceram em 1919. Livro de mágoas teve duzentos exemplares publicados, os quais foram vendidos rapidamente. Sua primeira obra oficial foi composta por sonetos. A segunda coletânea de sonetos foi publicada em 1923. Livro de sóror saudade foi uma obra paga pelo pai de Florbela.

Suicídio

 

Em 1927, Florbela Espanca perdeu o irmão. Apeles morreu em um acidente de avião, o que marcou a vida da poetisa até o fim. Em sua homenagem, ela escreveu um conjunto de contos no livro As máscaras do destino, publicado somente em 1931, após a morte da portuguesa.
Cada vez mais debilitada pelo falecimento do irmão, Florbela tentou suicídio por três vezes, falhando nas duas primeiras e sendo a última fatal. Ela morreu no dia do seu aniversário de 36 anos, em 8 de dezembro de 1930, na cidade de Matosinhos, com superdose de barbitúricos.

Obras póstumas

 

Em meio ao sofrimento que resultou em seu suicídio, Florbela fez o Diário do último ano, obra escrita em 1930 e publicada apenas em 1981.
Charneca em flor, escrita por volta de 1927, só conseguiu publicação em 1931. Florbela havia tentado um editor para a obra, mas não teve sua vontade realizada em vida.
Diversos sonetos e poemas foram publicados postumamente, os quais estiveram presentes também em Juvenília (1931) e Reliquiae (1934). Guido Batteli, italiano professor de Literatura da Universidade de Coimbra, reuniu toda a obra de Florbela em um volume com o título Sonetos completos, publicado em 1934. Diversas edições foram lançadas posteriormente.

Poemas de Florbela

A escritora foi intensa, e isso é perceptível em trabalhos como “A vida e a morte”, o seu primeiro poema. Apesar de ter sido escrito quando Florbela ainda era criança, com apenas 9 anos de idade, o texto já traz sua essência.
Com dado do Brasil Escola



03 POEMAS DE SOPHIA VARGAS



Carinhos,afagos. 
Sorrisos. 
São como uma oração. 
Distribuí-los... 
Nos toca o coração. 
E com certeza nos retornarão.


Às vezes...
Pequenas palavras 
que queremos dizer... 
Nos ficam engasgadas. 
Só para não perder. 
Um Bem Querer.


Que saudade! 
Uma vontade de
lhe ver. 
Há um vazio 
em tudo que vejo.
Um perfume suave 
que tenho na lembrança. 
Dos lindos momentos
quando me envolvia 
com você. 

A poesia de Rejane de Souza



I

MINHA MEMÓRIA TEM MUITOS GOSTOS
Gosto de guabirabas, ubalhas, camboins e bom-de-galo.
Tem cores de bois-de reis, pastoris, das cantigas de roda
e dos brinquedos populares.
Minhas memórias têm ecos das histórias de trancoso, de lendas e mitos
Têm sabor das comidas regionais: canjicas, beijus, tapiocas, baião de dois
De banho de chuvas e dos riachos...
Minhas memórias têm cheiro de bebê, de frutas maduras, de lenha, de
peixes assado à brasa, de roseiras, de terra.
Minhas memórias têm sentimentos de Deus, de solidão, de saudade, de
amor, de amizade, de alegria, de melancolia, de decepção, de forte emoção.
Minha memória é esse barroquismo de sim e de não...
que (des) equilibra meu chão.


II
EXÍLIO
Refugio para me encontrar
Escrevo para sobreviver
Alimento de solidão para me proteger


SÃO JOSÉ DE MIPIBU-13.04.2019
III
COMPOSIÇÃO QUASE PERFEITA DO ESCRITOR
A fortaleza dos versos de Cora Coralina

A musicalidade de Cecília Meireles
A humanidade da escritura de Thiago de Melo

A ironia necessária de Machado de Assis
O distanciamento crítico de um Cabral
A consciência do mundo de Drummond

A leveza da poética de Quintana
A subjetividade de Clarice
O ceticismo de Bandeira

O labirinto verbal de Rosa
A melancolia de Florbela
A agudeza de Augusto
E a heteronímia de Pessoa.


REJANE DE SOUZA – NÍSIA FLORESTA – RN
(Poesia publicada na Antologia Comemorativa ao Dia Internacional das Mulheres no I
Mulherio das Letras de Portugal – Local: Universidade de Nova Lisboa e Palácio
Baldaya)

PARA CONHECIMENTO, UM POUCO DE MINHA BIOGRAFIA
BIOGRAFIA – REJANE SOUZA
Natural de Nísia Floresta/RN-Graduada em Letras/UFRN
Mestra em Literatura Comparada/UFRN
Coordenadora geral do Projeto de Formação de leitor em literatura
infanto-juvenil – Projeto selecionado pelo Edital do BNB Cultural –
BNDES – Governo Federal. Edição 2012.
Produtora Cultural da I Feira Literária de Nísia Floresta – I Feira Literária
de Nísia Floresta.
Membro da equipe avaliadora do Concurso Moacir Cyrne da Funcarte –
na categoria Ensaio Literário – 2016.
Membro da ALAMP – Associação Literária e Artística das Mulheres
Potiguares
Membro do Conselho Municipal do Livro, Leitura e Bibliotecas de
Natal/RN, 2019.
Idealizadora e Coordenadora do Mulherio de Nísia Floresta/RN
Atualmente na coordenação e articulação do III Encontro Nacional do
Mulherio das Letras no RN.

Cartas ◄ Américo José Lima Da Silva (Harry)



É que de Roma padeceria as saudades, viria algum refugio em escritos em cartas de amor cibernéticas

Américo José Lima Da Silva(Harry)
Ibateguara/ Alagoas /Brasil


Exmª Amada
Drª Carla Carla
Piazza Navona/ Roma

Bom dia amada.Espero encontrar-te em paz e saúde nestes confins que nos apartam, neste tardar findo até vossa volta noutro raiar celeste.Aqui ,digo-vos; nesta vulgata que discerne-te minha,és qual a flor rara de meus cuidados, que Roma roubou-me pelo destino temporário a pétala de vosso olhar,este a amar-me na literalidade de nossos corpos por nós detalhados, arrebatando a minuciosidade reciproca dos zelos humanos a eclodir assomado a vivencia conjugue,nos viemos pela construção empática dos grandes amores. Nesta missiva evoluída tecnologia, perco-me a achar-te em missivas que escrever-te ia noutra fantástica encarnação pretérita ou futura, pois agonizo em felicidades de querer-te pela eternidade de todos os tempos..Sem mais a escrever-te nesta, despeço-me em paz a deixar-vos sábia dos cuidados sobre nossas almas amantes.

19/04/2019
Ibateguara/ Alagoas/ Brasil
Assunto – Cartas de amor



A POESIA DE FERNANDA DA CUNHA OLIVEIRA


ETERNO AMOR

Paris, lugar onde tudo começou...
Minha vida, a nossa linda história
Tudo se mantém vivo na memória.

Cidade Luz, que faz cada sentimento brilhar...
Nossos corações se uniram tão forte
Que nada nos separa, nem mesmo a morte.

Seu olhar se fixou ao meu de um jeito...
Parecia que tudo estava parado
E os nossos olhares tão vidrados.

O que era paixão, passou a ser amor...
A certeza de amar esta dentro de nós
Ecoa dentro do peito com alta e bela voz.

Lá podemos gritar: estou de fato amando!
Na verdade nem precisamos tanto ecoar
É tão visível nosso amor, basta o admirar.

Quem nos vê, consegue mesmo perceber...
Que a nossa união é sincera e verdadeira
E que será pra sempre, pela vida inteira.

Eu te amo e tu também me amas
Seguiremos nos amando seja onde for
Daremos vida eterna ao nosso lindo amor.


HORIZONTE DO AMOR

Horizonte, lugar tão lindo
Onde o sol vai surgindo
Diante do mar e o arrebol.
Linda e contagiante sintonia
Que embeleza tanto o dia
Esse maravilhoso cartão postal.
Nacente brilho que conduz
Um iluminado raio de luz
Que invade tantos corações.
Casais que são apaixonados
Vivem em sonhos encantados
Por obterem tantas emoções.
Cenário tão belo e perfeito
Cria sentimentos lá no peito
De quem ama e deseja amar.
Lugar especial e tão romântico
Transforma rimas em cânticos
Para enamorar, esse é o lugar.



UIRAPURU ◄ UM POEMA DE ELIETE MARRY



Na tribo Guarani
mora a indiazinha Jaci
dona do pássaro Uirapuru

À sombra do cupuaçu canta
o pássaro a  saudar a beleza
da indiazinha Jaci
que desperta logo cedo.

Pela floresta afora
silencia a natureza
para ouvir a melodia do pássaro cantor
que à sombra das árvores se encantou.

Diz a indiazinha Jaci:
“Teu cantar é belo
Tuas asas são livres
Ao entardecer
Voltarei aqui
Para te desejar boa  noite
Voa, voa meu Uirapuru!”


AOS POTIGUARAS ◄ EVA POTIGUAR



Rasgou-se o manto dos teus cabelos 
Ficaram expostas tuas
queimaduras do tempo
Roubaram tua pureza e juventude
Prostituíram teu coração e cultura
Teu cocar venderam ao museu
Tuas artes são cinzas de taipa
Te restaram os tijolos como céu
As histórias e lendas de papel


Eva Potiguar é o codinome da Profa. Dra Evanir de Oliveira Pinheiro, poeta, ambientalista, artista visual, pedagoga e Doutora em Educação pela UFRN. Atua na formação de professores e como coordenadora do curso de Extensão do NEP/RN e da ONAS/RN. Vencedora de prêmios nacionais de educação pelo MEC/BRASIL, pelo Arte Escola Cidadã e Internacional pela ASMED em Madrid.



Sítio do Pica-pau Amarelo ◄ Paula Belmino



São doces os bolinhos da Tia Nastácia,
Dá medo as sapequices do saci,
A cuca quer pegar Narizinho,
E vive a enfeitiçar o Pedrinho.
No Sítio do Pica-pau Amarelo
Todo dia é dia de fazer o bem.
Numa viagem ao reino das águas claras
Emília quer ser nobre também.
Ao conhecer o príncipe escamado,
Narizinho vira rainha,
Emília se torna marquesa,
Que boneca mais espertinha!
A boneca espoleta
Casa com o marquês de rabicó
Depois que ganhou vida
Emília vive numa alegria só!
No Sítio do Pica-Pau Amarelo
Dona Benta conta suas histórias
Conta e encanta aos netos
Cria afeto na memória.
Lá o burro é inteligente
e lê sem demora:
Contos, cantigas e versos.
No sítio a imaginação aflora.
Desde as invenções de Visconde,
Tudo passa a ser fantástico.
Sitio do Pica-Pau Amarelo
Que grande espetáculo!
Livros cheios de histórias mágicas,
O mundo doce de fato
com cor e sabor de infância
Inventado por Monteiro Lobato.



03 POEMAS DE ADÉLIA PRADO



SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


AMOR VIOLETA

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)


AGORA, Ò JOSÉ

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 34)
*




POEMA DE SETE FACES

DO POETA ITABIRANO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos
O bonde passa cheio de pernas
Pernas brancas pretas amarelas
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
Não perguntam nada
O homem atrás do bigode
É sério, simples e forte
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é meu coração
Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo