A poesia de Rejane de Souza



I

MINHA MEMÓRIA TEM MUITOS GOSTOS
Gosto de guabirabas, ubalhas, camboins e bom-de-galo.
Tem cores de bois-de reis, pastoris, das cantigas de roda
e dos brinquedos populares.
Minhas memórias têm ecos das histórias de trancoso, de lendas e mitos
Têm sabor das comidas regionais: canjicas, beijus, tapiocas, baião de dois
De banho de chuvas e dos riachos...
Minhas memórias têm cheiro de bebê, de frutas maduras, de lenha, de
peixes assado à brasa, de roseiras, de terra.
Minhas memórias têm sentimentos de Deus, de solidão, de saudade, de
amor, de amizade, de alegria, de melancolia, de decepção, de forte emoção.
Minha memória é esse barroquismo de sim e de não...
que (des) equilibra meu chão.


II
EXÍLIO
Refugio para me encontrar
Escrevo para sobreviver
Alimento de solidão para me proteger


SÃO JOSÉ DE MIPIBU-13.04.2019
III
COMPOSIÇÃO QUASE PERFEITA DO ESCRITOR
A fortaleza dos versos de Cora Coralina

A musicalidade de Cecília Meireles
A humanidade da escritura de Thiago de Melo

A ironia necessária de Machado de Assis
O distanciamento crítico de um Cabral
A consciência do mundo de Drummond

A leveza da poética de Quintana
A subjetividade de Clarice
O ceticismo de Bandeira

O labirinto verbal de Rosa
A melancolia de Florbela
A agudeza de Augusto
E a heteronímia de Pessoa.


REJANE DE SOUZA – NÍSIA FLORESTA – RN
(Poesia publicada na Antologia Comemorativa ao Dia Internacional das Mulheres no I
Mulherio das Letras de Portugal – Local: Universidade de Nova Lisboa e Palácio
Baldaya)

PARA CONHECIMENTO, UM POUCO DE MINHA BIOGRAFIA
BIOGRAFIA – REJANE SOUZA
Natural de Nísia Floresta/RN-Graduada em Letras/UFRN
Mestra em Literatura Comparada/UFRN
Coordenadora geral do Projeto de Formação de leitor em literatura
infanto-juvenil – Projeto selecionado pelo Edital do BNB Cultural –
BNDES – Governo Federal. Edição 2012.
Produtora Cultural da I Feira Literária de Nísia Floresta – I Feira Literária
de Nísia Floresta.
Membro da equipe avaliadora do Concurso Moacir Cyrne da Funcarte –
na categoria Ensaio Literário – 2016.
Membro da ALAMP – Associação Literária e Artística das Mulheres
Potiguares
Membro do Conselho Municipal do Livro, Leitura e Bibliotecas de
Natal/RN, 2019.
Idealizadora e Coordenadora do Mulherio de Nísia Floresta/RN
Atualmente na coordenação e articulação do III Encontro Nacional do
Mulherio das Letras no RN.

Cartas ◄ Américo José Lima Da Silva (Harry)



É que de Roma padeceria as saudades, viria algum refugio em escritos em cartas de amor cibernéticas

Américo José Lima Da Silva(Harry)
Ibateguara/ Alagoas /Brasil


Exmª Amada
Drª Carla Carla
Piazza Navona/ Roma

Bom dia amada.Espero encontrar-te em paz e saúde nestes confins que nos apartam, neste tardar findo até vossa volta noutro raiar celeste.Aqui ,digo-vos; nesta vulgata que discerne-te minha,és qual a flor rara de meus cuidados, que Roma roubou-me pelo destino temporário a pétala de vosso olhar,este a amar-me na literalidade de nossos corpos por nós detalhados, arrebatando a minuciosidade reciproca dos zelos humanos a eclodir assomado a vivencia conjugue,nos viemos pela construção empática dos grandes amores. Nesta missiva evoluída tecnologia, perco-me a achar-te em missivas que escrever-te ia noutra fantástica encarnação pretérita ou futura, pois agonizo em felicidades de querer-te pela eternidade de todos os tempos..Sem mais a escrever-te nesta, despeço-me em paz a deixar-vos sábia dos cuidados sobre nossas almas amantes.

19/04/2019
Ibateguara/ Alagoas/ Brasil
Assunto – Cartas de amor



A POESIA DE FERNANDA DA CUNHA OLIVEIRA


ETERNO AMOR

Paris, lugar onde tudo começou...
Minha vida, a nossa linda história
Tudo se mantém vivo na memória.

Cidade Luz, que faz cada sentimento brilhar...
Nossos corações se uniram tão forte
Que nada nos separa, nem mesmo a morte.

Seu olhar se fixou ao meu de um jeito...
Parecia que tudo estava parado
E os nossos olhares tão vidrados.

O que era paixão, passou a ser amor...
A certeza de amar esta dentro de nós
Ecoa dentro do peito com alta e bela voz.

Lá podemos gritar: estou de fato amando!
Na verdade nem precisamos tanto ecoar
É tão visível nosso amor, basta o admirar.

Quem nos vê, consegue mesmo perceber...
Que a nossa união é sincera e verdadeira
E que será pra sempre, pela vida inteira.

Eu te amo e tu também me amas
Seguiremos nos amando seja onde for
Daremos vida eterna ao nosso lindo amor.


HORIZONTE DO AMOR

Horizonte, lugar tão lindo
Onde o sol vai surgindo
Diante do mar e o arrebol.
Linda e contagiante sintonia
Que embeleza tanto o dia
Esse maravilhoso cartão postal.
Nacente brilho que conduz
Um iluminado raio de luz
Que invade tantos corações.
Casais que são apaixonados
Vivem em sonhos encantados
Por obterem tantas emoções.
Cenário tão belo e perfeito
Cria sentimentos lá no peito
De quem ama e deseja amar.
Lugar especial e tão romântico
Transforma rimas em cânticos
Para enamorar, esse é o lugar.



UIRAPURU ◄ UM POEMA DE ELIETE MARRY



Na tribo Guarani
mora a indiazinha Jaci
dona do pássaro Uirapuru

À sombra do cupuaçu canta
o pássaro a  saudar a beleza
da indiazinha Jaci
que desperta logo cedo.

Pela floresta afora
silencia a natureza
para ouvir a melodia do pássaro cantor
que à sombra das árvores se encantou.

Diz a indiazinha Jaci:
“Teu cantar é belo
Tuas asas são livres
Ao entardecer
Voltarei aqui
Para te desejar boa  noite
Voa, voa meu Uirapuru!”


AOS POTIGUARAS ◄ EVA POTIGUAR



Rasgou-se o manto dos teus cabelos 
Ficaram expostas tuas
queimaduras do tempo
Roubaram tua pureza e juventude
Prostituíram teu coração e cultura
Teu cocar venderam ao museu
Tuas artes são cinzas de taipa
Te restaram os tijolos como céu
As histórias e lendas de papel


Eva Potiguar é o codinome da Profa. Dra Evanir de Oliveira Pinheiro, poeta, ambientalista, artista visual, pedagoga e Doutora em Educação pela UFRN. Atua na formação de professores e como coordenadora do curso de Extensão do NEP/RN e da ONAS/RN. Vencedora de prêmios nacionais de educação pelo MEC/BRASIL, pelo Arte Escola Cidadã e Internacional pela ASMED em Madrid.



Sítio do Pica-pau Amarelo ◄ Paula Belmino



São doces os bolinhos da Tia Nastácia,
Dá medo as sapequices do saci,
A cuca quer pegar Narizinho,
E vive a enfeitiçar o Pedrinho.
No Sítio do Pica-pau Amarelo
Todo dia é dia de fazer o bem.
Numa viagem ao reino das águas claras
Emília quer ser nobre também.
Ao conhecer o príncipe escamado,
Narizinho vira rainha,
Emília se torna marquesa,
Que boneca mais espertinha!
A boneca espoleta
Casa com o marquês de rabicó
Depois que ganhou vida
Emília vive numa alegria só!
No Sítio do Pica-Pau Amarelo
Dona Benta conta suas histórias
Conta e encanta aos netos
Cria afeto na memória.
Lá o burro é inteligente
e lê sem demora:
Contos, cantigas e versos.
No sítio a imaginação aflora.
Desde as invenções de Visconde,
Tudo passa a ser fantástico.
Sitio do Pica-Pau Amarelo
Que grande espetáculo!
Livros cheios de histórias mágicas,
O mundo doce de fato
com cor e sabor de infância
Inventado por Monteiro Lobato.



03 POEMAS DE ADÉLIA PRADO



SEDUÇÃO

A poesia me pega com sua roda dentada,
me força a escutar imóvel
o seu discurso esdrúxulo.
Me abraça detrás do muro, levanta
a saia pra eu ver, amorosa e doida.
Acontece a má coisa, eu lhe digo,
também sou filho de Deus,
me deixa desesperar.
Ela responde passando
a língua quente em meu pescoço,
fala pau pra me acalmar,
fala pedra, geometria,
se descuida e fica meiga,
aproveito pra me safar.
Eu corro ela corre mais,
eu grito ela grita mais,
sete demônios mais forte.
Me pega a ponta do pé
e vem até na cabeça,
fazendo sulcos profundos.
É de ferro a roda dentada dela.


AMOR VIOLETA

O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.

(Do livro Bagagem. Rio de Janeiro: Record, 2011. p. 83)


AGORA, Ò JOSÉ

É teu destino, ó José,
a esta hora da tarde,
se encostar na parede,
as mãos para trás.
Teu paletó abotoado
de outro frio te guarda,
enfeita com três botões
tua paciência dura.
A mulher que tens, tão histérica,
tão histórica, desanima.
Mas, ó José, o que fazes?
Passeias no quarteirão
o teu passeio maneiro
e olhas assim e pensas,
o modo de olhar tão pálido.
Por improvável não conta
O que tu sentes, José?
O que te salva da vida
é a vida mesma, ó José,
e o que sobre ela está escrito
a rogo de tua fé:
“No meio do caminho tinha uma pedra”
“Tu és pedra e sobre esta pedra”.
A pedra, ó José, a pedra.
Resiste, ó José. Deita, José,
Dorme com tua mulher,
gira a aldraba de ferro pesadíssima.
O reino do céu é semelhante a um homem
como você, José.

(Do livro Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. p. 34)
*




POEMA DE SETE FACES

DO POETA ITABIRANO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos
O bonde passa cheio de pernas
Pernas brancas pretas amarelas
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
Não perguntam nada
O homem atrás do bigode
É sério, simples e forte
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é meu coração
Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo



O QUE TU DIRIAS, GONÇALVES DIAS? ►

HELENICE PRIEDOLS 

Tupã desenhou um emaranhado
de rios no grande verde brasileiro
espalhou pássaros pelo ar
bichos grandes e pequenos
gente colorida pela paisagem
gente que planta, caça e pesca
gente que dança e bate os pés na terra
gente que tem poesia no nome

Xavante Guarani
Kayapó Canela Kaiabi
Waiwai Kuikuro Yanomami
Timbira Guajajara Karajá
Avá-Canoeiro Tupi Makuxi

o rio canta os mantras dos ancestrais
a floresta é a mãe que abraça
valentes guerreiros
sábios xamãs
filhos das matas
“meninos, eu vi!”

meninos, eu vi
o homem da cidade
matar e excluir
desmatar e destruir
os rios e os homens das florestas
eu vi o homem da cidade
com o brilho da cobiça no olhar

“Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto”
eu te peço e imploro
“por este sol que me aclara”
pela pátria que mora em meu peito
pelos irmãos pelas matas pelos rios
abre os olhos dos homens vazios

homem napëpë
escuta as vozes das árvores
que choram o assovio da morte
protege a riqueza do chão e do ar
respeita a floresta e os animais
homem branco
deixa o rio fluir
deixa o índio em paz

MOINHO DO TEMPO ◄ PAULA BELMINO


O moinho do tempo gira,
nunca para.E em cada movimento gera vida
gera energia e boas vibrações,
um novo tempo.
Em suas pás, o moinho
traz ventos de saudade,
alimento para a alma
de quem não pode voltar atrás,
pois o moinho do tempo
segue sempre em frente
girando, ritmadamente 
como as batidas de nosso coração.
Gira, gira e leva tudo embora;
cada minuto, cada momento,
os dias e os anos,
os amores, as pessoas.
O moinho do tempo 
se alimenta de nossos sonhos
e a cada volta 
podemos guardar, apenas,
as lembranças de um tempo antigo,
de um passado remoto ou breve
o viver presente, o agora.
Enquanto se pensa, 
o moinho já seguiu em frente
e nos deixa ali parados,
perdendo tempo:
O futuro não se sabe, 
o passado já girou.
O presente, pois, 
é átimo, é vento
uma brisa de sensações
que se deve aproveitar
enquanto ainda é tempo!
Giremos com a vida, 
esse moinho de delicadeza e arrebatamentos
O moinho nunca para de girar.
Vivamos, pois como um moinho 
sem nunca perder tempo para amar.

E pelo vento

NATAL, IRMÃ DO SOL ◄ ROSÂNGELA TRAJANO


As crianças na pedra do Rosário
Mergulham no Potengi
O trem urbano conta histórias aos trilhos
Ponte velha de Igapó diz-se menina despenteada
Alecrim bairro da felicidade
Natal, irmã do sol é criança ainda
E soletra palavrinhas à Ribeira dos boêmios
Encanta-se na noite estrelada as Quintas
Jangadas pintadas na tela surrealista
Do menino Jesus lá está Ponta Negra
Natal sonha ser princesa em seu brincar
Bairro Nordeste pequenino quer lhe namorar
Feira das Rocas nas manhãs de outono
Cortinas se abrem nas janelas do velho Santos Reis
Enquanto o Parque das Dunas sorri às verdes casas da bicharada
Mirassol, Neópolis, Capim Macio
Cheiram eucaliptos em guizos de primaveras
Natal, és mocinha de anel com pedra de vidro
Em tua ponte Newton Navarro
Faz-se risos o palhaço Faísca
Chico Daniel com seus bonecos contadores de histórias eternizou-se
Felipe Camarão com casinhas brancas e amarelas fotografa-se jardins
Bem falaria de ti o mestre Câmara Cascudo
Eu sou tua filha e te nino em meus versos
Feito menino que abraça a bola
Guardo-te na anima em página marcada
Metamorfose tua é a Zona Norte
Em seus conjuntos coloridos
Loteamento Nossa Senhora da Apresentação
Há estrelas cadentes em tuas ruas
Cidade do meu entardecer na calçada
Que dorme nos braços do rio Potengi
Perdizes e andorinhas dizem meu amor
E eu sou planta do canteiro dançante
Natal, te amo aquem dos mitos e lendas
das tuas esquinas.

Feliz aniversário, Natal! 

Rosângela Trajano

Amos Oz, escritor israelense, morre aos 79 anos



Amos Oz, escritor israelense e co-fundador do movimento pacifista Paz Agora, morreu aos 79 anos, disse sua filha no Twitter nesta sexta-feira (28). Segundo ela, ele sofria de câncer.
"Para aqueles que o amam, obrigado", escreveu Fania Oz-Salzberger na rede social.
Dono de uma extensa obra literária, o autor produzia romances, ensaios e críticas desde os anos 1960. Como escritor e ativista político, foi um dos intelectuais mais reconhecidos de seu país.
Seu livro mais conhecido é o romance autobiográfico "Rimas da vida e da morte" (2003), reconhecido como uma obra-prima da literatura mundial.
Entre seus trabalhos, estão ainda "Meu Michael" (1973), "A caixa preta" (1988), "Conhecer uma mulher" (1991), "Pantera no porão' (1997) e "O mesmo mar" (2002).

Biografia
Nascido em 4 de maio de 1939 em Jerusalém, de uma família de origem russa e polonesa, Amos mudou seu sobrenome em 1954, de Klausner para Oz, uma palavra hebraica que significa "força, coragem". No mesmo ano, deixou sua cidade natal para trabalhar no kibutz Hulda.
Ele publicou seus primeiros contos com pouco mais de 20 anos, em um periódico local. De volta a Jerusalém, estudou filosofia e literatura na Universidade Hebraica antes de retornar ao kibutz, onde por 25 anos dividiu seu tempo entre escrever e dar aulas.
Como soldado de reserva, Amos lutou no Sinai durante a Guerra dos Seis Dias de 1967 e nas Colinas de Golã na Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973.



HOMENAGEM A SANCHO PANÇA ►

Um texto da escritora TEREZA CUSTÓDIO

Quando manuseei, pela primeira vez, o livro O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha – clássico da literatura universal do autor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) – devo confessar que não estava com tanta disponibilidade para ler todas aquelas páginas pitorescas sobre o nobre e valente cavaleiro andante dos romances de cavalaria. Porém, aos poucos, fui me entusiasmando pelo fidalgo de porte alto e delgado que saía cavalgando em terras espanholas em seu cavalo Rocinante revestido de uma antiga armadura, um elmo, um escudo e uma lança em punho, dedicando suas aventuras e façanhas heroicas à amada Dulcinéia de Toboso. Como não se encantar por esse homem fantasioso e idealista que lutou contra a opressão com bravura e coragem em prol da justiça e da integridade do ser humano? Sem sombra de dúvida, Dom Quixote de La Mancha é um personagem loucamente apaixonante. Contudo, sem a pretensão de tirar um milésimo do mérito da grandeza do honrado e notável herói, longe de mim, simples mortal, insinuar tal disparate, tal despautério; deixo-o intocável com todas suas honras, suas glórias e seus feitos que o imortalizaram nesses quatro séculos. Mas, apaixonei-me pelo outro. Por Sancho Pança – o fiel escudeiro de Dom Quixote. Apaixonei-me por aquele homem de singular sabedoria que ajuda seu amo em suas empreitadas tresloucadas a deslumbrar o mundo de uma forma mais realista e o faz repleto do sentimento de compaixão pelo Cavaleiro da Triste Figura. Apaixonei-me por aquele gorducho baixinho, prosaico e ingênuo que deixa o posto de governador de uma ilha e, montado numa mula capenga, volta a seguir, fielmente, seu velho amo de cinquenta anos pela região seca de Castilla, consolidados em laços afetivos indissolúveis. Apaixonei-me por aquela figura solidária e generosa que providencia o alimento, cuida dos ferimentos com unguentos e alentos, zelando pelo bem-estar físico e emocional do velho Dom Quixote de La Mancha.
Quero, portanto, homenagear e enaltecer Sancho Pança e todos os que fazem do ato de cuidar um verdadeiro ato de amor. Que aprendamos com Sancho Pança a ser benevolente e tolerante com nossos irmãos.
Tereza Custódio
Romancista, cordelista e trovadora.
Dezembro, 2018

DOMINGO É DIA DE PESCAR ASSOMBRAÇÃO (UMA LEITURA DE ANA CLÁUDIA TRIGUEIRO)


Por José de Castro

Acredito que muitos amigos e amigas tenham uma enorme fila de livros à espera de leitura na prateleira. Livros que, aos poucos, vão se acumulando em face a visitas a livrarias, sebos e, principalmente, a lançamentos literários que, ao final do ano, costumam se avolumar, pois os autores querem ver suas obras lançadas antes do período das festas natalinas. Assim, quem sabe, seu livro possa ser útil nas confraternizações de fim de ano, nos amigos secretos,  ou como presente de Natal?

Num domingo qualquer resolvi, então, que seria a hora de diminuir essa fila, pois os domingos costumam ser propícios à leitura. Comecei a olhar a prateleira, passando por alguns dos títulos. Qual seria o escolhido do dia? Havia muitos de poemas. Mas senti que estava na vibe da prosa. Percorri lombadas de romances, novelas e crônicas. Acabei adiando-os por mais algum tempo e escolhi um de contos. Confesso que aquele livro estava me suplicando para ser lido desde quando o adquirira, semanas atrás. Conhecia já a autora, por quem nutro especial admiração. Dela, havia lido dois romances. E os havia apreciado bastante. Então, senti que estava na hora de encarar “A ira de Judas – contos assombrados”, de Ana Cláudia Trigueiro (Natal: CJA, 2018, 135 p.)

Lembrei-me que tinha até uma foto do dia em que recebera o autógrafo da autora. Eu e ela ao lado do banner com da capa do livro, na qual Judas nos ameaça com sua bocarra cheia de dentes, pronto a estraçalhar o que vier pela frente.

Comecei a leitura pela manhã e a interrompi perto do meio-dia para almoçar fora. Não com o intuito de fazer marketing, mas para causar inveja, revelo que fui ao Mina D’Água - comida mineira -  que fica em Ponta Negra. Depois de saborear as iguarias das Gerais, incluindo a sobremesa de doce de cidra com queijo meia cura, voltei para casa. Então, retomei a outra degustação, iniciada pela manhã, a qual não larguei mais enquanto não cheguei à última história. Aliás, mesmo depois de chegar ao final, para minha alegria, o livro não terminou: ainda prosseguiu, trazendo textos “Extras”, um brinde especial ao leitor.

Assim como a autora, que revela nos “Extras” a sua paixão pelas obras de ficção extraordinária, eu também aprecio esse gênero em suas várias modalidades. Sempre gostei de Edgar Alan Poe e Stephen King, para citar apenas dois autores. Lobisomens, vampiros, suspense, mistério, terror, tudo isso me encanta. E encontrei uma boa amostra de quase tudo o que assombra nesse livro de contos. E narrados numa linguagem que traz, aqui e ali,  a marca da fala nordestina, pois a maioria das histórias é ambientada em lugares facilmente reconhecidos na geografia potiguar por todos os que vivem por estas bandas, mesmo que os locais tenham sido levemente disfarçados em seus nomes. Mas aparecem também cenários da França e da Crimeia e alguns que a autora deixou em aberto para que a imaginação do leitor os localize onde quiser. Como exemplos de lugares mais conhecidos tem-se o “Lajedo da Saudade”, que foi inspirado no sítio arqueológico “Lajedo de Soledade” da Chapada do Apodi/RN; a “Praia Vermelha”, que é, na verdade, a “Praia de Ponta Negra” (Natal/RN), como explica a autora nos escritos extras, ao final do livro.

A familiaridade demonstrada pela escritora com os ambientes onde se desenrola o novelo das histórias, através de uma riqueza de detalhes, dá vida à obra e confere consistência ao que é narrado. Por outro lado, e talvez devido à sua vivência na área da psicologia, as personagens são bem caracterizadas em seu perfil e em seus traços pessoais. Imagino que algumas delas são meio que baseadas em desejos ocultos da própria autora - mas confessos nos extras - como a de ser arqueóloga, tal como a personagem Beatriz do conto “Os ossos do revolucionário”. Aliás, este foi um dos contos que mais me chamou a atenção, pois além de se inspirar numa figura emblemática da história do Rio Grande do Norte, André de Albuquerque, mostra a personagem central, Beatriz, como uma profissional apaixonada e inteiramente tomada pelo que faz, tal como a autora o demonstra com a literatura. Assim, a realidade imita a fantasia e vice-versa. 

Desse modo, fiquei impressionado com a magia de sua narrativa, ancorada em fatos históricos, em achados do seu baú de escritora/pesquisadora, que consegue, com mestria, mesclar realidade e ficção.  A maneira com que as histórias são montadas revela a arte de quem sabe dosar o momento exato de revelar ou de esconder, de sugerir. Tudo isso contribui para uma leitura agradável, pois nada é gratuito na obra: detalhes ganham importância e intrigam o leitor, como, por exemplo, o desafio lançado para que se descubra quem personifica o lobisomem de um dos contos. 

A autora se mostra, antes de mais nada, alguém que tem um olhar atento, contemporâneo e que sabe construir personagens – diga-se de passagem, uma boa galeria deles -  e tem um jeito especial de conduzir o fio da narrativa com o requinte descritivo dos cenários e a localização dos acontecimentos contextualizados em diferentes épocas (Século XVIII, 1930, 1980 e  1990, por exemplo).

Ao final do livro, o leitor fica ainda mais grato à autora pelas revelações de algumas particularidades de influências nessa obra, principalmente de autores como Stephen King, Conan Doyle, Oscar Wilde e até mesmo inspiração advinda de seriado da Netflix. A explicação da gênese  de cada conto serve como leitura suplementar que enriquece sobremaneira a obra e mostra o cuidado e o compromisso da contista com o seu ofício. São curiosidades que permitem o estabelecimento de uma certa cumplicidade do leitor com a escritora. Com certeza, esses textos adicionais serão muito úteis, principalmente para o caso de a obra vir a ser estudada em escolas, respondendo a prováveis indagações de mestres e alunos, ao mesmo tempo em que servem como guia de leitura. 

Gostei de todos os contos, mas faço um destaque para três deles: “O fantasma do edifício 21 de março”, “A encruzilhada do diabo” e “O estranho cemitério de Serrote do Junco”.

No primeiro, chamou-me a atenção a inusitada solução encontrada para o desfecho da história – do qual não vou fazer spoiler - que traz à baila fenômenos interessantes à moda dos “poltergeists”, com uma certa dose de leveza e até mesmo de bom humor no enredo. Encontrei alguns traços da autora na sua personagem Andreia, escritora, que gosta de ler Quintana e Drummond, além de estar determinada a escrever uma história infantil. Delicioso o diálogo que a personagem mantém ao teclar com um fantasma em seu notebook. Um conto para ser lido ao som de piano, preferentemente, para se entrar mais ainda no clima da história.  

Quanto ao segundo dentre os mencionados, trata-se de uma retomada dos famosos “tratos com o demônio”, narrado num cenário bem interessante e que mostra de forma instigante o duelo entre o bem e o mal, evidenciando a força e a importância da devoção aos santos. Um culto à fé e ao triunfo do amor. Neste conto, há muito de mágico no momento em que duas das personagens centrais vão fazer a invocação do demo, aboio cortando o silêncio da serra, acompanhado de gaita e viola. As personagens, todas elas, são apaixonantes e emblemáticas, havendo uma certa dose de ironia no fato de um padre estar ali naquele cenário, ele mesmo um dos protagonistas daquele tipo de pacto. Ao aboio segue-se a cantoria dos versos de uma das músicas de Zé Ramalho. Há uma sucessão rápida de acontecimentos inesperados que deixo à responsabilidade do leitor descobrir quando estiver com o livro nas mãos. Adianto apenas que saboreei cada linha dessa narrativa, incluindo a própria descrição dos dois duelantes finais, o cramunhão e a santa, com pormenores que mostram bem o domínio da autora na construção de personagens.

Já o terceiro conto aqui destacado, “O estranho cemitério de Serrote do Junco”, nos delicia com um elenco de ressuscitados, os mortos que voltam à vida, suas peripécias e os novos desfechos do destino desses redivivos. O conto tem uma certa pitada da obra de Veríssimo (Incidente em Antares) e, com certeza, poderia facilmente virar uma novela, tal a riqueza das personagens apresentadas e todas as possibilidades de desdobramentos que elas ensejam. Sem contar com o final do conto, que sugere nova onda de inusitadas ressurreições na pacata cidade serro-junquense. Meus olhos de leitor pediam que a história se estendesse mais.

Posso dizer que todos os onze contos mereceriam algum comentário. Por exemplo, o “A escadaria de Vorontsovisky”, lembrou-me um pouco o estilo da escrita de Marina Colasanti em seus bons momentos de prosa, quando ambienta suas personagens, geralmente príncipes e princesas, em ambientes requintados como o faz aqui a autora, colocando Erina a se deslumbrar com o “salão azul”, todo em turquesa, “com centenas de flores brancas”, lareira de  mármore, “piano de cauda com incrustações em dourado”, o mágico cenário a que a escadaria conduz. Porém o espaço aqui não permite tantas louvações quanto gostaria de fazer. Destacar um ou outro conto não significa desmerecimento aos demais, uma vez que o objetivo deste texto é apenas o de despertar no leitor a vontade de conhecer uma contista potiguar de relevo, que merece ser lida, relida, estudada e divulgada ao máximo que se puder. Não é todo o dia que nos deparamos com uma escrita tão convidativa, agradável e consistente, tanto na forma quanto no conteúdo. Escrever contos é uma arte. E, sem dúvida, bem dominada por Ana Cláudia Trigueiro. Fico, então, na expectativa de que ela continue a escavar - como a sua personagem Beatriz -  camadas após camadas de seus guardados no baú, de onde sairão, imagino, não só outros contos extraordinários, como também novos romances, novelas e livros destinados à faixa infantil e infantojuvenil. Serão presentes que eu, particularmente, aguardo ansioso.

Confesso minha alegria em perceber que existem domingos, livros e autoras desse quilate que nos fazem viajar e nos encantam com a força e a magia de narrativas tão singulares como as que encontramos nessa obra publicada pela CJA em 2018.  Com certeza, um livro que faz história dentro do gênero conto, representando um dos bons momentos da literatura que se pratica hoje no Rio Grande do Norte. Recomendo a leitura, com algumas estrelas. Aliás, com uma constelação.  Aqui existe brilho. Está feito o convite.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta e autor de livros para crianças (A Marreca de Rebeca, A cozinha da Maria Farinha, Poemares, Vaca amarela pulou a janela, dentre outros). E autor de livros de poemas para adultos (Apenas palavras e Quando chover estrelas). Membro da SPVA/RN, UBE/RN e da ALACIB/Mariana /MG. Contato: josedecastro9@gmail.com


A IRA DE JUDAS – contos assombrados
Ana Cláudia Trigueiro, Natal: CJA, 2018, 135 p.