CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA


DEZ POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO


01.

CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Trago-te um sorriso de estrela..
Uma roda gigante.
Uma ternura em caracol.
  
02.

NUMA CAIXA DE FÓSFOROS

Guardo um raio de sol.
Milhões de vaga-lumes.
Meu peito é girassol.
  
03.
CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Ternura em cachos.
Sorriso em pencas.
Eterna primavera.
  
04.

MEU CORAÇÃO PARECE 

Águia no infinito azul.
Borboleta amarela.
Escaravelho lápis-lazúli.

05.

CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Reivento a vida ao vento.
Bailarino do tempo.
Viro mundo de pernas pro ar.
  
06.

UM DIA, MARIA FUMAÇA

Resfolega arco-íris.
Destino ao longe apita.
Coração fora do trilho. 

07.

CORAÇÃO DE POETA INVENTA TUDO

Um elefante que flutua.
Um navio-foguete.
Sol que namora lua.


08.

CORAÇÃO DE POETA NAVEGA O TEMPO

Nos teus braços entardeci.
Fiz-me pôr do sol.
Luar nasceu em mim.

09.

CORAÇÃO DE POETA MENINO

Revira o mundo.
Veleja no sonho.
Inventa amplidões.

10.

CORAÇÃO DE POETA VIAJA

Onde vais tu?
Ali, na esquina do sonho. 
Encontrar o impossível.   


*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Escreve também para crianças. Livros recentes: Vaca amarela pulou a janela, O Palhaço e a Bailarina (com Clécia Santos) e Um livro, um castelo. Membro da SPVA/RN, da UBE/RN e da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – ALACIB/Mariana/MG. Contato: josedecastro9@gmail.com

COMO EU TE AMO


Um poema do poeta maranhense Gonçalves Dias


Como se ama o silêncio, a luz, o aroma,
O orvalho numa flor, nos céus a estrela,
No largo mar a sombra de uma vela,
Que lá na extrema do horizonte assoma;

Como se ama o clarão da branca lua,
Da noite na mudez os sons da flauta,
As canções saudosíssimas do nauta,
Quando em mole vaivém a nau flutua,

Como se ama das aves o gemido,
Da noite as sombras e do dia as cores,
Um céu com luzes, um jardim com flores,
Um canto quase em lágrimas sumido;

Como se ama o crepúsculo da aurora,
A mansa viração que o bosque ondeia,
O sussurro da fonte que serpeia,
Uma imagem risonha e sedutora;

Como se ama o calor e a luz querida,
A harmonia, o frescor, os sons, os céus,
Silêncio, e cores, e perfume, e vida,
Os pais e a pátria e a virtude e a Deus:

Assim eu te amo, assim; mais do que podem
Dizer-to os lábios meus, - mais do que vale
Cantar a voz do trovador cansada:
O que é belo, o que é justo, santo e grande
Amo em ti. - Por tudo quanto sofro,
Por quanto já sofri, por quanto ainda
Me resta de sofrer, por tudo eu te amo.
O que espero, cobiço, almejo, ou temo
De ti, só de ti pende: oh! nunca saibas
Com quanto amor eu te amo, e de que fonte
Tão terna, quanto amarga o vou nutrindo!
Esta oculta paixão, que mal suspeitas,
Que não vês, não supões, nem te eu revelo,
Só pode no silêncio achar consolo,
Na dor aumento, intérprete nas lágrimas.

De mim não saberás como te adoro;
Não te direi jamais,
Se te amo, e como, e a quanto extremo chega
Esta paixão voraz!

Se andas, sou o eco dos teus passos;
Da tua voz, se falas;
o murmúrio saudoso que responde
Ao suspiro que exalas.

No odor dos teus perfumes te procuro,
Tuas pegadas sigo;
Velo teus dias, te acompanho sempre,
E não me vês contigo!

Oculto e ignorado me desvelo
Por ti, que me não vês;
Aliso o teu caminho, esparjo flores,
Onde pisam teus pés.
Mesmo lendo estes versos, que m'inspiras,
- "Não pensa em mim", dirás:
Imagina-o, se o podes, que os meus lábios
Não to dirão jamais!

Sim, eu te amo; porém nunca
Saberás do meu amor;
A minha canção singela
Traiçoeira não revela
O prêmio santo que anela
O sofrer do trovador!

Sim, eu te amo; porém nunca
Dos lábios meus saberás,
Que é fundo como a desgraça,
Que o pranto não adelgaça,
Leve, qual sombra que passa,
Ou como um sonho fugaz!

Aos meus lábios, aos meus olhos
Do silêncio imponho a lei;
Mas lá onde a dor se esquece,
Onde a luz nunca falece,
Onde o prazer sempre cresce,
Lá saberás se te amei!

E então dirás: Objeto
Fui de santo e puro amor:
A sua canção singela;
Tudo agora me revela;
Já sei o prêmio que anela
O sofrer do trovador.

"Amou-me como se ama a luz querida,
Como se ama o silêncio, os sons, os céus,
Qual se amam cores e perfume e vida,
Os pais e a pátria, e a virtude e a Deus!"

A MAIOR SOLIDÃO É A DO SER QUE NÃO AMA


Um texto poético de Vinícius de Moraes

A maior solidão é a do ser que não ama. A maior solidão é a dor do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana.

A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo,
o que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade, de socorro.

O maior solitário é o que tem medo de amar, o que tem medo de ferir e ferir-se,
o ser casto da mulher, do amigo, do povo, do mundo. Esse queima como uma lâmpada triste, cujo reflexo entristece também tudo em torno. Ele é a angústia do mundo que o reflete. Ele é o que se recusa às verdadeiras fontes de emoção, as que são o patrimônio de todos, e, encerrado em seu duro privilégio, semeia pedras do alto de sua fria e desolada torre.

TRÊS POEMAS/TRÊS POETAS


Nesta série com as poetas Adélia Costa, Leocy Saraiva e Clécia Santos


Desejo
Adélia Costa
Quero a leveza da alma voante
Que põe as dores no tanque
E no varal tudo expõe, estanque
Para não mais se lembrar
Evaporar no ar até espaçonar

Quero o brilho dos olhos, amantes
Que cintilam abertos, berrantes
Ao léo, fechados, como diamantes
Reluzindo trovas e imagens
Gozos infindos, suspiros viajantes

Quero ser poeta não errante
Que por terras e mares pisantes
É poesia, luz, mágica que te encante
Assim quando adubo um dia eu for
Que eu germine nas linhas e liras
Floresça nas eternas juras de teu amor


Uma noite de sonhos
Clécia Santos
Adormecida emergi,
Viajei por dias e noites
O percurso lindo
Que é está entre nuvens.
Senti que nada eu era
Apenas floco de neve
No frio encontro
Do fio subconsciente...
Do eu e dos sonhos.


De pedra
(Leocy Saraiva)
Extirpei a raiz da primavera,
Senti meu suor verter em vão/
Me vi de novo aprendiz da solidão/
Arremessei o amor pela janela.

Não vi a banda passar/
Tocando uma canção singela/.
As flores viraram pedras
e eu virei uma delas.


A verve de Mô Ribeiro


Três poemas da poeta mineira Mô Ribeiro

Ampulheta

quantos pontos
são necessários
para estancar
o sangue
de quem se corta
com os cacos
da ampulheta?

quantas pinças
são necessárias
para tirar
do sangue
a areia do tempo
que escapou
da ampulheta quebrada?

quantos anos
sofridos
são necessários
para que não se quebre
a ampulheta?

a ampulheta
é por si
torta, trincada
mal lacrada, vazada.


Fotogênesis

A minha fotografia mente
o meu olhar.

Não há as corrugas
do chapisco,

nem sequer a cor que vejo
dos riscos que contam
da chuva que choveu.

Não há fidelidade
na oxidação fotografada.

A câmera não mostra o ar que
belamente
pintou sardas no metal
que parece o telhado
sustentar.

Será?
Será que sustenta?

Os verdumes?
Deles nem falo.

Minha fotografia?
É mentira pro meu olhar.

Talvez um dia eu possa aprender
A fotogenar.


Já que não sei fotografar

uma nuvem gigante traça um plano cinza-escuro no céu.
acima, o breu e a lua:
ela adornada com seu halo também plúmbeo
ela partida ao meio.
algumas estrelas
. talvez mortas, para mim vivas .
fazem a escolta
falsa imóvel.
a terra gira
mas tudo parece parado.
apenas meus cabelos e as plantas e minha saia provam
que o ar hoje quis correr.
sob o pseudônimo vento
ele canta
com seu timbre indefinível.


Brincar ou brigar de brigadeiros? Quem começa primeiro?

     Um poema de Eliete Marry no especial do Dia das Crianças

Hoje teve briga_deiro
Meninas brincavam
Eram as primeiras!
Meninos questionavam
Serem derradeiros
A confusão foi adoçada
Dividimos a panela ao meio
Coitado do pretinho faceiro
Dividido em dois inteiros
Pra satisfazer os meninos doceiros
Faziam bolinhas meladas de confeiteiros
E teve até quem se lambuzou inteiro
Os mais sapecas comiam ligeiro
A confusão foi desarmada
E o culpado foi o gostoso brigadeiro
Como doce castigo
Coloriram seu corpo inteiro
- E no calor do céu
Derreteu-se o gostoso brigadeiro!

Doce aventura ► Paula Belmino



Uma aventura,
Uma brincadeira.
O descobrir da vida
a sonhar.
Experimentar
o sabor doce de uma árvore 
e o gosto eterno de uma flor.
Medir o som do vento
e dar vida à música de um livro.
Provar o gosto do pôr do sol
e sentir a ternura macia
da pena de um passarinho 
aninhado em nosso peito. 
Isso é viver
E achar-se livre.
É voar na imaginação.
Numa aventura de se descobrir
e de saber ser
Sempre, criança.

Vamos festejar!


10 poemas infantis para abrilhantar ainda mais o Dia das Crianças

1. O Menino Azul – Cecília Meireles

O menino quer um burrinho
para passear.
Um burrinho manso,
que não corra nem pule,
mas que saiba conversar.
O menino quer um burrinho
que saiba dizer
o nome dos rios,
das montanhas, das flores,
– de tudo o que aparecer.
O menino quer um burrinho
que saiba inventar histórias bonitas
com pessoas e bichos
e com barquinhos no mar.
E os dois sairão pelo mundo
que é como um jardim
apenas mais largo
e talvez mais comprido
e que não tenha fim.
(Quem souber de um burrinho desses,
pode escrever
para a Ruas das Casas,
Número das Portas,
ao Menino Azul que não sabe ler.)


2. Pontinho de Vista – Pedro Bandeira

Eu sou pequeno, me dizem,
e eu fico muito zangado.
Tenho de olhar todo mundo
com o queixo levantado.
Mas, se formiga falasse
e me visse lá do chão,
ia dizer, com certeza:
— Minha nossa, que grandão!


3. A porta – Vinicius de Moraes

Sou feita de madeira
Madeira, matéria morta
Não há nada no mundo
Mais viva que uma porta
Eu abro devagarinho
Pra passar o menininho
Eu abro bem com cuidado
Pra passar o namorado
Eu abro bem prazenteira
Pra passar a cozinheira
Eu abro de supetão
Pra passar o capitão
Eu fecho a frente da casa
Fecho a frente do quartel
Eu fecho tudo no mundo
Só vivo aberta no céu!


4. Poeminha do Contra – Mario Quintana

Todos estes que aí estão
Atravancando o meu caminho,
Eles passarão.
Eu passarinho!


5. O Direito das Crianças – Ruth Rocha

Toda criança no mundo
Deve ser bem protegida
Contra os rigores do tempo
Contra os rigores da vida.
Criança tem que ter nome
Criança tem que ter lar
Ter saúde e não ter fome
Ter segurança e estudar.
Não é questão de querer
Nem questão de concordar
Os diretos das crianças
Todos têm de respeitar.
Tem direito à atenção
Direito de não ter medos
Direito a livros e a pão
Direito de ter brinquedos.
Mas criança também tem
O direito de sorrir.
Correr na beira do mar,
Ter lápis de colorir…
Ver uma estrela cadente,
Filme que tenha robô,
Ganhar um lindo presente,
Ouvir histórias do avô.
Descer do escorregador,
Fazer bolha de sabão,
Sorvete, se faz calor,
Brincar de adivinhação.
Morango com chantilly,
Ver mágico de cartola,
O canto do bem-te-vi,
Bola, bola,bola, bola!
Lamber fundo da panela
Ser tratada com afeição
Ser alegre e tagarela
Poder também dizer não!
Carrinho, jogos, bonecas,
Montar um jogo de armar,
Amarelinha, petecas,
E uma corda de pular.


6. A Lua foi ao Cinema – Paulo Leminski

A lua foi ao cinema,
passava um filme engraçado,
a história de uma estrela
que não tinha namorado.
Não tinha porque era apenas
uma estrela bem pequena,
dessas que, quando apagam,
ninguém vai dizer, que pena!
Era uma estrela sozinha,
ninguém olhava para ela,
e toda a luz que ela tinha
cabia numa janela.
A lua ficou tão triste
com aquela história de amor,
que até hoje a lua insiste:
– Amanheça, por favor!


7. Guarda-chuvas – Rosana Rios

Tenho quatro guarda-chuvas
todos os quatro com defeito;
Um emperra quando abre,
outro não fecha direito.
Um deles vira ao contrário
seu eu abro sem ter cuidado.
Outro, então, solta as varetas
e fica todo amassado.
O quarto é bem pequenino,
pra carregar por aí;
Porém, toda vez que chove,
eu descubro que esqueci…
Por isso, não falha nunca:
se começa a trovejar,
nenhum dos quatro me vale –
eu sei que vou me molhar.
Quem me dera um guarda-chuva
pequeno como uma luva
Que abrisse sem emperrar
ao ver a chuva chegar!
Tenho quatro guarda-chuvas
que não me servem de nada;
Quando chove de repente,
acabo toda encharcada.
E que fria cai a água
sobre a pele ressecada!
Ai…


8. A Centopeia – Marina Colasanti

Quem foi que primeiro
teve a ideia
de contar um por um
os pés da centopeia?
Se uma pata você arranca
será que a bichinha manca?
E responda antes que eu esqueça
se existe o bicho de cem pés
será que existe algum de cem cabeças?


9. Canção para ninar dromedário – Sérgio Capparelli

Drome, drome
Dromedário
As areias
Do deserto
Sentem sono,
Estou certo.
Drome, drome
Dormedário
Fecha os olhos
O beduíno,
Fecha os olhos,
Está dormindo.
Drome, drome
Dromedário
O frio da noite
Foi-se embora,
Fecha os olhos
Dorme agora.
Drome, drome
Dromedário
Dorme, dorme,
A palmeira,
Dorme, dorme,
A noite inteira.
Drome, drome
Dromedário
Foi-se embora
O cansaço
E você dorme
No meu braço.
Drome, drome
Dromedário
Drome, drome
Dromedário
Drome, drome
Dromedário.


10. Convite – José Paulo Paes

Poesia
é brincar com palavras
como se brinca
com bola, papagaio, pião.
Só que
bola, papagaio, pião
de tanto brincar
se gastam.
As palavras não:
quanto mais se brinca
com elas
mais novas ficam.
Como a água do rio
que é água sempre nova.
Como cada dia
que é sempre um novo dia.
Vamos brincar de poesia?


Esperança ► Mário de Sá-Carneiro



Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu fi-lo perfeitamente,
Para diante de tudo foi bom
bom de verdade
bem feito de sonho
podia segui-lo como realidade

Esperança:
isto de sonhar bom para diante
eu sei-o de cor.
Até reparo que tenho só esperança
nada mais do que esperança
pura esperança
esperança verdadeira
que engana
e promete
e só promete.
Esperança:
pobre mãe louca
que quer pôr o filho morto de pé?

Esperança
único que eu tenho
não me deixes sem nada
promete
engana
engano que seja
engana
não me deixes sozinho
esperança.

Se ► Rudyard Kipling



Se és capaz de manter a tua calma quando
Todo o mundo ao teu redor já a perdeu e te culpa;
De crer em ti quando estão todos duvidando,
E para esses no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso;
Se és capaz de pensar –sem que a isso só te atires,
De sonhar –sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se encontrando a desgraça e o triunfo conseguires
Tratar da mesma forma a esses dois impostores;
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas
Em armadilhas as verdades que disseste,
E as coisas, por que deste a vida, estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida;
De forçar coração, nervos, músculos, tudo
A dar seja o que for que neles ainda existe,
E a persistir assim quando, exaustos, contudo
Resta a vontade em ti que ainda ordena: “Persiste!”;
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes
E, entre reis, não perder a naturalidade,
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
E se és capaz de dar, segundo por segundo,
Ao minuto fatal todo o valor e brilho,
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo
E o que mais –tu serás um homem, ó meu filho!


Joseph Rudyard Kipling (Bombaim, 30 de dezembro de 1865 — Londres, 18 de janeiro de 1936) foi um autor e poeta britânico, conhecido por seus livros "The Jungle Book" (1894), "The Second Jungle Book" (1895), "Just So Stories" (1902), e "Puck of Pook's Hill" (1906); sua novela, "Kim" (1901); seus poemas, incluindo "Mandalay" (1890), "Gunga Din" (1890), "If"(1910) e "Ulster 1912" (1912); e seus muitos contos curtos, incluindo "The Man Who Would Be King" (1888) e as compilações "Life's Handicap" (1891), "The Day's Work" (1898), e "Plain Tales from the Hills" (1888).

A tua voz fala amorosa


Um poema de Fernando Pessoa

A tua voz fala amorosa…
Tão meiga fala que me esquece
Que é falsa a sua branda prosa.
Meu coração desentristece.
Sim, como a música sugere
O que na música não está,
Meu coração nada mais quer
Que a melodia que em ti há…
Amar-me? Quem o crera? Fala
Na mesma voz que nada diz
Se és uma música que embala.
Eu ouço, ignoro, e sou feliz.
Nem há felicidade falsa,
Enquanto dura é verdadeira.
Que importa o que a verdade exalça
Se sou feliz desta maneira?
.
22-1-1929
Poesias Inéditas (1919-1930). Fernando Pessoa. (Nota prévia de Vitorino Nemésio e notas de Jorge Nemésio.) Lisboa: Ática, 1956 (imp. 1990). – 108.

Walt Whitman ► A um estranho



Estranho que passa! você não sabe com quanta saudade eu lhe olho,
Você deve ser aquele a quem procuro, ou aquela a quem procuro, (isso me vem, como em um sonho,)
Vivi com certeza uma vida alegre com você em algum lugar,
Tudo é relembrado neste relance, fluído, afeiçoado, casto, maduro,
Você cresceu comigo, foi um menino comigo, ou uma menina comigo,
Eu comi com você e dormi com você – seu corpo se tornou não apenas seu, nem deixou o meu corpo somente meu,
Você me deu o prazer de seus olhos, rosto, carne, enquanto passamos – você tomou de minha barba, peito, mãos, em retorno,
Eu não devo falar com você – devo pensar em você quando sentar-me sozinho, ou acordar sozinho à noite,
Eu devo esperar – não duvido que lhe reencontrarei,
Eu devo garantir que não irei lhe perder.

Magaíça ◄ Noémia de Souza



A manhã azul e ouro dos folhetos de propaganda
engoliu o mamparra,
entontecido todo pela algazarra
incompreensível dos brancos da estação
e pelo resfolegar trepidante dos comboios
Tragou seus olhos redondos de pasmo,
seu coração apertado na angústia do desconhecido,
sua trouxa de farrapos
carregando a ânsia enorme, tecida
de sonhos insatisfeitos do mamparra.

E um dia,
o comboio voltou, arfando, arfando...
oh nhanisse, voltou.
e com ele, magaíça,
de sobretudo, cachecol e meia listrada
e um ser deslocado
embrulhado em ridículo.

Ás costas - ah onde te ficou a trouxa de sonhos, magaíça?
trazes as malas cheias do falso brilho
do resto da falsa civilização do compound do Rand.
E na mão,
magaíça atordoado acendeu o candeeiro,
á cata das ilusões perdidas,
da mocidade e da saúde que ficaram soterradas
lá nas minas do Jone...

A mocidade e a saúde,
as ilusões perdidas
que brilharão como astros no decote de qualquer lady
nas noites deslumbrantes de qualque City.



Carolina Noémia Abranches de Sousa Soares (1926-2002) foi uma poetisa e jornalista moçambicana. Noémia de Sousa estudou no Brasil e começou a publicar em O Brado Africano.




Pedra Filosofal


Um poema do poeta lusitano António Gedeão 


Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.

Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é Cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.

Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida.
Que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.


António Gedeão é um pseudônimo do português Rómulo Vasco da Gama de Carvalho, português, foi um químico, professor de físico-química do ensino secundário no Liceu Pedro Nunes e Liceu Camões, pedagogo, investigador de História da ciência.





A poesia de Sophia Vargas



Bons Ventos...

E que:
bons ventos nos
direcione.
Ao caminho do amor
e da sabedoria.
Peço à Deus
que me afaste do mal
e das pessoas más,
as ervas daninhas.


Setembro

Setembro!
São manhãs,
com desabrochar
de flores...
a natureza se encarrega,
de nos mostrar, nos ensinar,
a colorir o mundo
com tons de felicidade.


Imperfeita

Por ser imperfeita,
eu tenho em mim:
todas as qualidades
e todos os defeitos.
que me são permitidos...