ACHA A TENRA MOCIDADE • LUÍS DE CAMÕES



Acha a tenra mocidade
Prazeres acomodados,
E logo a maior idade
Já sente por pouquidade
Aqueles gostos passados.
Um gosto que hoje se alcança,
Amanhã já não o vejo;
Assim nos traz a mudança
De esperança em esperança
E de desejo em desejo.
Mas em vida tão escassa
Que esperança será forte?
Fraqueza da humana sorte,
Que quanto da vida passa
Está receitando a morte!

VIVER É COMO ANDAR DE BICICLETA

  Um poema de Paula Belmino

Veja bem criança,
A vida é como andar de bicicleta...
A gente se equilibra,
faz força
sempre a pedalar .
A vida é roda,
gira, gira e nunca para.
De bicicleta a gente corre veloz,
leve, livre, solto,
como deve ser vivida a vida:
Com liberdade e alegria.
De bicicleta criança,
a gente sente o sol bater no rosto
e ouve a canção do vento
a nos dizer que importante na vida
é ser feliz.
Andar de bicicleta é viver,
fazer exercícios, contemplar a natureza
e se aventurar .
Correr veloz para não se perder tempo.
E nem deixar a infância ir embora.

QUINZE POETRIX NA ARCA DE NOÉ


Por José de Castro

01.
NA PASSARELA DA ARCA
Tatuado, de brinco,
charmoso e moderno
desfila o ornitorrinco.

02.
NA ARCA DE NOÉ
Tigre de bengala,
binário compasso
manca no convés.

03.
NA ARCA SE INVENTA MODA
A cacatua da Austrália
desfila no salto.
A cutia de sandália.

04.
SAVANA NA ARCA
Ruge o leão.
No jogo dos bichos
deu zebra também.

05.
JOGO DE CARTAS 
O tatu e a tatua
pra matar o tempo
jogam buraco.

06.
TROCADILHO NA ARCA
Leão escova o dente.
Leoa penteia a juba.
Centopéia quer ser_pente.

07.
DE TUDO UM POUCO
Um porco espinho
espeta outro porco.
Noé fica louco.

08.
PARADOXOS DE NOÉ
Pobre barata!
Sobreviveu ao dilúvio.
Mas não ao chinelo.

09.
ACENANDO, UM LENCINHO
Na Arca, solitário,
o bicho-saudade
também embarcou.

10.
PÓS-ALMOÇO VEGANO
Na rede,
Noé tira a sesta
com preguiça.

11.
ARGONAUTA
O papagaio de Noé
declama Pessoa:
“Navegar é preciso”.

12.
FANFARRA DOS BICHOS
A arca segue adiante.
Toca tarol dona Onça.
Sopra trumpete o elefante.

13.
ELEMENTAR, MEU CARO!
Noé inventou
o zoo.
Lógico.

14.
E AGORA, NOÉ?
Coça a cabeça.
Franze o sobrolho.
Seria piolho?

15.
À NOITE NA ARCA
Bichos, sono tranquilo.
Na cabeça de Noé
Os grilos.


(José de Castro, aprendiz de poeta, SPVA/RN, UBE/RN) 

SEGREDO PARA ACHAR A PAZ ◄ PAULA BELMINO



Ao buscar a paz, não vá muito longe, você pode se perder no caminho, e os perigos da estrada podem desviá-lo, fazendo com que a sua busca se torne inacessível, e você jamais a encontre.
Ao buscar a paz, não saia correndo sem olhar para trás. Por vezes, a paz está guardada em algum lugar do passado, e não é no futuro que se reserva à sua espera.
Não vá correndo em busca da paz, e pisando em tudo que vê pela frente. É bem rente ao chão que talvez ela more, E, se você sair atropelando tudo, poderá passar despercebido, e ainda matar o que está pelo caminho.
Ao ir ao encontro à paz voe, voe bem alto, mas siga o exemplo dos pássaros e das borboletas: eles voam, mas pousam, fazem casulos e ninhos bem perto das plantas, vivem de flores e folhas, aninham-se, descansam.
A busca pela paz não pode ser uma busca desenfreada. Deve-se descansar, e deixar as asas pousadas no jardim, com calma. A paciência lhe levará à paz.
Dê tudo de si em busca da paz, atente-se ao bom trabalho, no servir aos outros, no repartir seu pão, sendo cada vez melhor, na busca da realização pessoal.
E, por fim, quando você der tudo de si em busca da paz, não se esqueça que é na simplicidade do viver que a paz se encontra. A paz não está além das estrelas, muito menos num jardim multicor, tampouco no vento, no dinheiro, na realização pessoal, num amigo, ou na família somente. A paz é a soma de tudo e do nada, , é uma asa pousada, é uma flor a desabrochar. A paz é comer o pão do suor do teu rosto com teus filhos, com consciência tranquila, com sede de justiça, sendo sempre correto e solidário. A paz é repartir tua mesa com alguém desconhecido. Mas não é só pão, é sentimento e sonho, é semente e asa, é abrigo, é aninhar-se num amigo.
A paz está ali, e principalmente aqui, tão perto.
A paz está dentro de você e o espera de braços abertos.



ALÉM DA CAMPINA ◄ JOSÉ DE CASTRO



A vida se estende vasta
Como os trigais do pensamento
A se amarelecer ao pôr do sol.
Contempla a vida enquanto há tempo,
Enquanto as trevas não te assustam
Em noites sem lua, despidas de estrelas.
Contempla a face oculta da utopia
Que almejas em algum não-lugar
Desse mundo de Deus.
A vida é breve e o tempo urge.
Alonga teus olhos para as visões impossíveis,
Perscruta o silêncio dessa tarde que se esvai.
As pedras também se calam
Mas ainda sabem sonhar.
Anjos do azul te espreitam alhures
De onde a última trombeta haverá de soar.
Apura os teus ouvidos.
Há uma canção de esperança que se
Prepara ao longe, nos infinitos que ninguém
Ainda conhece.
Essa voz será o clamor de todos os
que têm  coração de ouro e rubi
E que não se desesperam por tão pouco.
Ainda resta um brilho de prata na espada
Da verdade que jamais se verga ao tirano.
Sim, a vida se estende para além da campina.
Escuta, menina, tu és a rainha dos novos tempos.
Tu és a vida que espreita, ao longe, na campina.
Vigia, ainda, um pouco mais.
Vês? Os corvos voam e se assustam ao teu olhar.
Eles temem a tua luz que jamais se apagará.
A vitória é um dom de quem não se desespera.
E que sabe lutar.


(José de Castro, jornalista, escritor, poeta.)

HOMENAGEM AO DIA DO SOLDADO • 25 DE AGOSTO


Um poema de PAULA BELMINO

Serve à pátria
Luta pelo bem
Sonha igualdade à todos
Como rege a lei.

Sem medir esforços
O bem antevê
Pratica a cidadania
para a paz manter.

Soldado sempre pronto
com amor na missão
Cumprir sempre com zelo
dar sua vida pela nação.

Disciplina e postura
Justiça e cidadania
Soldado em combate
A toda distopia

Ama a bandeira
Em sua alma mora o país
Seu trabalho é propósito
de ver seu povo feliz.

Soldado em batalha
Nunca perde a guerra
Amar o Brasil
Na fé que nunca se encerra.



PARA MEU PAI ◄ CLAIRE FELIZ REGINA



(Para meu pai que foi embora de casa quando eu ainda era bem pequena)

Pai Quando você estava vivo pai muitas vezes eu quis dizer que te amava.
Mas dizer como se você não me escutava.
Agora que você não está mais aqui não pode mais me ouvir...
Ou pode?
Então vou falar:
Porque enquanto você estava aqui eu nunca disse que te amava?
Porque eu nunca te achava.
Porque você nunca estava perto de mim.
Você não vivia pra mim.
Você não existia pra mim.
E eu aquela criança que tanto te procurava.
Sem saber o que fazer – chorava.
Sofri muito.
Sofri a sua ausência, a falta da sua bênção de que eu precisava tanto.
E quem eu tinha para me consolar?
Apenas o meu pranto.
Crescendo achei melhor negar esse amor.
Achei melhor dizer que não te amava mais.
Foi essa a maneira que eu encontrei
Para suportar a falta de um colo seguro, de um abraço apertado, de um beijo nunca encontrado, mas que eu queria demais.
Mas hoje no dia dos pais esse amor veio a tona e eu não posso mentir mais.
Tudo que eu disse é mentira.
A verdade Pai é que eu sempre te amei e ainda te amo demais.


DA SÉRIE ERÓTICAS


04 Poemas de Jeanne Araujo 

Transe

Vilipendiada por tuas mãos
por tuas palavras e teu sexo
ultrajada até não mais poder
vi-me despojada de mim mesma.
Então acendo fogueira
danço em transe
e transo.

Meu gozo é meu rito
e agonizo em tuas chamas.


Gozo

Ao cair da tarde
tenho um rosto antigo

As estacas do tempo
cravadas na tarde
ardem voluptuosas
na lisura das ancas
no limo dos ossos
na ânsia do gozo.

No dentro e no fora
no fora e no dentro
sem muita demora
enquanto devoras
minha carne-unguento.


Cabala

Quando arqueio as costas
vibro igual violino
e mesmo as amarras
mordaças e estacas
não me bastam.

A voz, a tua, arrepia
as porcelanas, os quadros
e estremeço
onde o corpo se contrai.

Meu horror é teu mandamento
consentido em meu corpo inteiro.
Se preciso eu uivo, sibilo
acendo tua vela, teu pavio, tua adaga
porque és armadilha de cilício
no meu ventre.


Gotas

os pingos túmidos
que brilham em meu rosto
são gotas de quem me habita
e escreve na pele
a ferro e a fogo
elegia sagrada

e eu, curvada sobre pêndulo
ferindo-me no êxtase
doendo-me nos vãos
desembocando-me em extremos
contorço-me
enquanto sua escrita hieróglifa
desenha delicadamente
sobre meu rosto
membros, falos, grutas e fendas.


UM POUCO DE FLORBELA ESPANCA

Uma das maiores escritoras portuguesas, Florbela Espanca trouxe para a Literatura temas como amor, erotismo e angústia.

Florbela d’Alma da Conceição Espanca (1894-1930), nome adotado por Flor Bela Lobo, foi uma poeta/poetisa e um dos mais importantes nomes da Literatura Portuguesa. Florbela abordou temas como amor, erotização, angústia e sofrimento, trazendo a figura feminina para suas obras.
A poeta portuguesa teve duas antologias publicadas em vida: Livro de mágoas (1919) e Livro de sóror saudade (1923). Outras três foram lançadas postumamente: Charneca em flor (1931), Juvenília (1931) e Reliquiae (1934). Além da poesia, a autora portuguesa escreveu para jornais e traduziu obras literárias.

Primeiras obras

Nascida em Vila Viçosa, na região centro-sul de Portugal, Florbela perdeu a mãe muito cedo. Filha ilegítima de João Maria Espanca, foi registrada como se tivesse pai desconhecido e com o nome de Flor Bela Lobo. No entanto, João foi responsável por sua criação junto com a esposa, Mariana Espanca.
Entre os anos 1899 e 1908, Florbela frequentava uma escola em Viçosa e, nessa época, já começou a escrever seus primeiros textos. Até então, assinava seus trabalhos como Flor d’Alma da Conceição.
Florbela escreveu seu primeiro poema entre 1903 e 1904: “A vida e a morte”. Na mesma época, fez um soneto em homenagem ao seu irmão Apeles e um texto para o aniversário do pai. O primeiro conto escrito por ela foi “Mamã!”, em 1907, sobre sua mãe biológica, que morreria um ano depois.
Mais tarde, em 1916, a jovem Florbela fez uma coletânea com 85 poemas e três contos, textos que integraram o projeto “Trocando olhares”. A poeta não teve sucesso nas tentativas de tornar sua obra conhecida, mas o que foi escrito serviu de base para trabalhos futuros.
As primeiras vendas de Florbela aconteceram em 1919. Livro de mágoas teve duzentos exemplares publicados, os quais foram vendidos rapidamente. Sua primeira obra oficial foi composta por sonetos. A segunda coletânea de sonetos foi publicada em 1923. Livro de sóror saudade foi uma obra paga pelo pai de Florbela.

Suicídio

 

Em 1927, Florbela Espanca perdeu o irmão. Apeles morreu em um acidente de avião, o que marcou a vida da poetisa até o fim. Em sua homenagem, ela escreveu um conjunto de contos no livro As máscaras do destino, publicado somente em 1931, após a morte da portuguesa.
Cada vez mais debilitada pelo falecimento do irmão, Florbela tentou suicídio por três vezes, falhando nas duas primeiras e sendo a última fatal. Ela morreu no dia do seu aniversário de 36 anos, em 8 de dezembro de 1930, na cidade de Matosinhos, com superdose de barbitúricos.

Obras póstumas

 

Em meio ao sofrimento que resultou em seu suicídio, Florbela fez o Diário do último ano, obra escrita em 1930 e publicada apenas em 1981.
Charneca em flor, escrita por volta de 1927, só conseguiu publicação em 1931. Florbela havia tentado um editor para a obra, mas não teve sua vontade realizada em vida.
Diversos sonetos e poemas foram publicados postumamente, os quais estiveram presentes também em Juvenília (1931) e Reliquiae (1934). Guido Batteli, italiano professor de Literatura da Universidade de Coimbra, reuniu toda a obra de Florbela em um volume com o título Sonetos completos, publicado em 1934. Diversas edições foram lançadas posteriormente.

Poemas de Florbela

A escritora foi intensa, e isso é perceptível em trabalhos como “A vida e a morte”, o seu primeiro poema. Apesar de ter sido escrito quando Florbela ainda era criança, com apenas 9 anos de idade, o texto já traz sua essência.
Com dado do Brasil Escola



03 POEMAS DE SOPHIA VARGAS



Carinhos,afagos. 
Sorrisos. 
São como uma oração. 
Distribuí-los... 
Nos toca o coração. 
E com certeza nos retornarão.


Às vezes...
Pequenas palavras 
que queremos dizer... 
Nos ficam engasgadas. 
Só para não perder. 
Um Bem Querer.


Que saudade! 
Uma vontade de
lhe ver. 
Há um vazio 
em tudo que vejo.
Um perfume suave 
que tenho na lembrança. 
Dos lindos momentos
quando me envolvia 
com você. 

A poesia de Rejane de Souza



I

MINHA MEMÓRIA TEM MUITOS GOSTOS
Gosto de guabirabas, ubalhas, camboins e bom-de-galo.
Tem cores de bois-de reis, pastoris, das cantigas de roda
e dos brinquedos populares.
Minhas memórias têm ecos das histórias de trancoso, de lendas e mitos
Têm sabor das comidas regionais: canjicas, beijus, tapiocas, baião de dois
De banho de chuvas e dos riachos...
Minhas memórias têm cheiro de bebê, de frutas maduras, de lenha, de
peixes assado à brasa, de roseiras, de terra.
Minhas memórias têm sentimentos de Deus, de solidão, de saudade, de
amor, de amizade, de alegria, de melancolia, de decepção, de forte emoção.
Minha memória é esse barroquismo de sim e de não...
que (des) equilibra meu chão.


II
EXÍLIO
Refugio para me encontrar
Escrevo para sobreviver
Alimento de solidão para me proteger


SÃO JOSÉ DE MIPIBU-13.04.2019
III
COMPOSIÇÃO QUASE PERFEITA DO ESCRITOR
A fortaleza dos versos de Cora Coralina

A musicalidade de Cecília Meireles
A humanidade da escritura de Thiago de Melo

A ironia necessária de Machado de Assis
O distanciamento crítico de um Cabral
A consciência do mundo de Drummond

A leveza da poética de Quintana
A subjetividade de Clarice
O ceticismo de Bandeira

O labirinto verbal de Rosa
A melancolia de Florbela
A agudeza de Augusto
E a heteronímia de Pessoa.


REJANE DE SOUZA – NÍSIA FLORESTA – RN
(Poesia publicada na Antologia Comemorativa ao Dia Internacional das Mulheres no I
Mulherio das Letras de Portugal – Local: Universidade de Nova Lisboa e Palácio
Baldaya)

PARA CONHECIMENTO, UM POUCO DE MINHA BIOGRAFIA
BIOGRAFIA – REJANE SOUZA
Natural de Nísia Floresta/RN-Graduada em Letras/UFRN
Mestra em Literatura Comparada/UFRN
Coordenadora geral do Projeto de Formação de leitor em literatura
infanto-juvenil – Projeto selecionado pelo Edital do BNB Cultural –
BNDES – Governo Federal. Edição 2012.
Produtora Cultural da I Feira Literária de Nísia Floresta – I Feira Literária
de Nísia Floresta.
Membro da equipe avaliadora do Concurso Moacir Cyrne da Funcarte –
na categoria Ensaio Literário – 2016.
Membro da ALAMP – Associação Literária e Artística das Mulheres
Potiguares
Membro do Conselho Municipal do Livro, Leitura e Bibliotecas de
Natal/RN, 2019.
Idealizadora e Coordenadora do Mulherio de Nísia Floresta/RN
Atualmente na coordenação e articulação do III Encontro Nacional do
Mulherio das Letras no RN.