POEMA DE SETE FACES

DO POETA ITABIRANO CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

Quando nasci, um anjo torto
Desses que vivem na sombra
Disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida
As casas espiam os homens
Que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul
Não houvesse tantos desejos
O bonde passa cheio de pernas
Pernas brancas pretas amarelas
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração
Porém meus olhos
Não perguntam nada
O homem atrás do bigode
É sério, simples e forte
Quase não conversa
Tem poucos, raros amigos
O homem atrás dos óculos e do bigode
Meu Deus, por que me abandonaste
Se sabias que eu não era Deus
Se sabias que eu era fraco
Mundo mundo vasto mundo
Se eu me chamasse Raimundo
Seria uma rima, não seria uma solução
Mundo mundo vasto mundo
Mais vasto é meu coração
Eu não devia te dizer
Mas essa lua
Mas esse conhaque
Botam a gente comovido como o diabo



O QUE TU DIRIAS, GONÇALVES DIAS? ►

HELENICE PRIEDOLS 

Tupã desenhou um emaranhado
de rios no grande verde brasileiro
espalhou pássaros pelo ar
bichos grandes e pequenos
gente colorida pela paisagem
gente que planta, caça e pesca
gente que dança e bate os pés na terra
gente que tem poesia no nome

Xavante Guarani
Kayapó Canela Kaiabi
Waiwai Kuikuro Yanomami
Timbira Guajajara Karajá
Avá-Canoeiro Tupi Makuxi

o rio canta os mantras dos ancestrais
a floresta é a mãe que abraça
valentes guerreiros
sábios xamãs
filhos das matas
“meninos, eu vi!”

meninos, eu vi
o homem da cidade
matar e excluir
desmatar e destruir
os rios e os homens das florestas
eu vi o homem da cidade
com o brilho da cobiça no olhar

“Tupã, ó Deus grande! descobre o teu rosto”
eu te peço e imploro
“por este sol que me aclara”
pela pátria que mora em meu peito
pelos irmãos pelas matas pelos rios
abre os olhos dos homens vazios

homem napëpë
escuta as vozes das árvores
que choram o assovio da morte
protege a riqueza do chão e do ar
respeita a floresta e os animais
homem branco
deixa o rio fluir
deixa o índio em paz

MOINHO DO TEMPO ◄ PAULA BELMINO


O moinho do tempo gira,
nunca para.E em cada movimento gera vida
gera energia e boas vibrações,
um novo tempo.
Em suas pás, o moinho
traz ventos de saudade,
alimento para a alma
de quem não pode voltar atrás,
pois o moinho do tempo
segue sempre em frente
girando, ritmadamente 
como as batidas de nosso coração.
Gira, gira e leva tudo embora;
cada minuto, cada momento,
os dias e os anos,
os amores, as pessoas.
O moinho do tempo 
se alimenta de nossos sonhos
e a cada volta 
podemos guardar, apenas,
as lembranças de um tempo antigo,
de um passado remoto ou breve
o viver presente, o agora.
Enquanto se pensa, 
o moinho já seguiu em frente
e nos deixa ali parados,
perdendo tempo:
O futuro não se sabe, 
o passado já girou.
O presente, pois, 
é átimo, é vento
uma brisa de sensações
que se deve aproveitar
enquanto ainda é tempo!
Giremos com a vida, 
esse moinho de delicadeza e arrebatamentos
O moinho nunca para de girar.
Vivamos, pois como um moinho 
sem nunca perder tempo para amar.

E pelo vento

NATAL, IRMÃ DO SOL ◄ ROSÂNGELA TRAJANO


As crianças na pedra do Rosário
Mergulham no Potengi
O trem urbano conta histórias aos trilhos
Ponte velha de Igapó diz-se menina despenteada
Alecrim bairro da felicidade
Natal, irmã do sol é criança ainda
E soletra palavrinhas à Ribeira dos boêmios
Encanta-se na noite estrelada as Quintas
Jangadas pintadas na tela surrealista
Do menino Jesus lá está Ponta Negra
Natal sonha ser princesa em seu brincar
Bairro Nordeste pequenino quer lhe namorar
Feira das Rocas nas manhãs de outono
Cortinas se abrem nas janelas do velho Santos Reis
Enquanto o Parque das Dunas sorri às verdes casas da bicharada
Mirassol, Neópolis, Capim Macio
Cheiram eucaliptos em guizos de primaveras
Natal, és mocinha de anel com pedra de vidro
Em tua ponte Newton Navarro
Faz-se risos o palhaço Faísca
Chico Daniel com seus bonecos contadores de histórias eternizou-se
Felipe Camarão com casinhas brancas e amarelas fotografa-se jardins
Bem falaria de ti o mestre Câmara Cascudo
Eu sou tua filha e te nino em meus versos
Feito menino que abraça a bola
Guardo-te na anima em página marcada
Metamorfose tua é a Zona Norte
Em seus conjuntos coloridos
Loteamento Nossa Senhora da Apresentação
Há estrelas cadentes em tuas ruas
Cidade do meu entardecer na calçada
Que dorme nos braços do rio Potengi
Perdizes e andorinhas dizem meu amor
E eu sou planta do canteiro dançante
Natal, te amo aquem dos mitos e lendas
das tuas esquinas.

Feliz aniversário, Natal! 

Rosângela Trajano

Amos Oz, escritor israelense, morre aos 79 anos



Amos Oz, escritor israelense e co-fundador do movimento pacifista Paz Agora, morreu aos 79 anos, disse sua filha no Twitter nesta sexta-feira (28). Segundo ela, ele sofria de câncer.
"Para aqueles que o amam, obrigado", escreveu Fania Oz-Salzberger na rede social.
Dono de uma extensa obra literária, o autor produzia romances, ensaios e críticas desde os anos 1960. Como escritor e ativista político, foi um dos intelectuais mais reconhecidos de seu país.
Seu livro mais conhecido é o romance autobiográfico "Rimas da vida e da morte" (2003), reconhecido como uma obra-prima da literatura mundial.
Entre seus trabalhos, estão ainda "Meu Michael" (1973), "A caixa preta" (1988), "Conhecer uma mulher" (1991), "Pantera no porão' (1997) e "O mesmo mar" (2002).

Biografia
Nascido em 4 de maio de 1939 em Jerusalém, de uma família de origem russa e polonesa, Amos mudou seu sobrenome em 1954, de Klausner para Oz, uma palavra hebraica que significa "força, coragem". No mesmo ano, deixou sua cidade natal para trabalhar no kibutz Hulda.
Ele publicou seus primeiros contos com pouco mais de 20 anos, em um periódico local. De volta a Jerusalém, estudou filosofia e literatura na Universidade Hebraica antes de retornar ao kibutz, onde por 25 anos dividiu seu tempo entre escrever e dar aulas.
Como soldado de reserva, Amos lutou no Sinai durante a Guerra dos Seis Dias de 1967 e nas Colinas de Golã na Guerra do Yom Kippur, em outubro de 1973.



HOMENAGEM A SANCHO PANÇA ►

Um texto da escritora TEREZA CUSTÓDIO

Quando manuseei, pela primeira vez, o livro O engenhoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha – clássico da literatura universal do autor espanhol Miguel de Cervantes Saavedra (1547-1616) – devo confessar que não estava com tanta disponibilidade para ler todas aquelas páginas pitorescas sobre o nobre e valente cavaleiro andante dos romances de cavalaria. Porém, aos poucos, fui me entusiasmando pelo fidalgo de porte alto e delgado que saía cavalgando em terras espanholas em seu cavalo Rocinante revestido de uma antiga armadura, um elmo, um escudo e uma lança em punho, dedicando suas aventuras e façanhas heroicas à amada Dulcinéia de Toboso. Como não se encantar por esse homem fantasioso e idealista que lutou contra a opressão com bravura e coragem em prol da justiça e da integridade do ser humano? Sem sombra de dúvida, Dom Quixote de La Mancha é um personagem loucamente apaixonante. Contudo, sem a pretensão de tirar um milésimo do mérito da grandeza do honrado e notável herói, longe de mim, simples mortal, insinuar tal disparate, tal despautério; deixo-o intocável com todas suas honras, suas glórias e seus feitos que o imortalizaram nesses quatro séculos. Mas, apaixonei-me pelo outro. Por Sancho Pança – o fiel escudeiro de Dom Quixote. Apaixonei-me por aquele homem de singular sabedoria que ajuda seu amo em suas empreitadas tresloucadas a deslumbrar o mundo de uma forma mais realista e o faz repleto do sentimento de compaixão pelo Cavaleiro da Triste Figura. Apaixonei-me por aquele gorducho baixinho, prosaico e ingênuo que deixa o posto de governador de uma ilha e, montado numa mula capenga, volta a seguir, fielmente, seu velho amo de cinquenta anos pela região seca de Castilla, consolidados em laços afetivos indissolúveis. Apaixonei-me por aquela figura solidária e generosa que providencia o alimento, cuida dos ferimentos com unguentos e alentos, zelando pelo bem-estar físico e emocional do velho Dom Quixote de La Mancha.
Quero, portanto, homenagear e enaltecer Sancho Pança e todos os que fazem do ato de cuidar um verdadeiro ato de amor. Que aprendamos com Sancho Pança a ser benevolente e tolerante com nossos irmãos.
Tereza Custódio
Romancista, cordelista e trovadora.
Dezembro, 2018

DOMINGO É DIA DE PESCAR ASSOMBRAÇÃO (UMA LEITURA DE ANA CLÁUDIA TRIGUEIRO)


Por José de Castro

Acredito que muitos amigos e amigas tenham uma enorme fila de livros à espera de leitura na prateleira. Livros que, aos poucos, vão se acumulando em face a visitas a livrarias, sebos e, principalmente, a lançamentos literários que, ao final do ano, costumam se avolumar, pois os autores querem ver suas obras lançadas antes do período das festas natalinas. Assim, quem sabe, seu livro possa ser útil nas confraternizações de fim de ano, nos amigos secretos,  ou como presente de Natal?

Num domingo qualquer resolvi, então, que seria a hora de diminuir essa fila, pois os domingos costumam ser propícios à leitura. Comecei a olhar a prateleira, passando por alguns dos títulos. Qual seria o escolhido do dia? Havia muitos de poemas. Mas senti que estava na vibe da prosa. Percorri lombadas de romances, novelas e crônicas. Acabei adiando-os por mais algum tempo e escolhi um de contos. Confesso que aquele livro estava me suplicando para ser lido desde quando o adquirira, semanas atrás. Conhecia já a autora, por quem nutro especial admiração. Dela, havia lido dois romances. E os havia apreciado bastante. Então, senti que estava na hora de encarar “A ira de Judas – contos assombrados”, de Ana Cláudia Trigueiro (Natal: CJA, 2018, 135 p.)

Lembrei-me que tinha até uma foto do dia em que recebera o autógrafo da autora. Eu e ela ao lado do banner com da capa do livro, na qual Judas nos ameaça com sua bocarra cheia de dentes, pronto a estraçalhar o que vier pela frente.

Comecei a leitura pela manhã e a interrompi perto do meio-dia para almoçar fora. Não com o intuito de fazer marketing, mas para causar inveja, revelo que fui ao Mina D’Água - comida mineira -  que fica em Ponta Negra. Depois de saborear as iguarias das Gerais, incluindo a sobremesa de doce de cidra com queijo meia cura, voltei para casa. Então, retomei a outra degustação, iniciada pela manhã, a qual não larguei mais enquanto não cheguei à última história. Aliás, mesmo depois de chegar ao final, para minha alegria, o livro não terminou: ainda prosseguiu, trazendo textos “Extras”, um brinde especial ao leitor.

Assim como a autora, que revela nos “Extras” a sua paixão pelas obras de ficção extraordinária, eu também aprecio esse gênero em suas várias modalidades. Sempre gostei de Edgar Alan Poe e Stephen King, para citar apenas dois autores. Lobisomens, vampiros, suspense, mistério, terror, tudo isso me encanta. E encontrei uma boa amostra de quase tudo o que assombra nesse livro de contos. E narrados numa linguagem que traz, aqui e ali,  a marca da fala nordestina, pois a maioria das histórias é ambientada em lugares facilmente reconhecidos na geografia potiguar por todos os que vivem por estas bandas, mesmo que os locais tenham sido levemente disfarçados em seus nomes. Mas aparecem também cenários da França e da Crimeia e alguns que a autora deixou em aberto para que a imaginação do leitor os localize onde quiser. Como exemplos de lugares mais conhecidos tem-se o “Lajedo da Saudade”, que foi inspirado no sítio arqueológico “Lajedo de Soledade” da Chapada do Apodi/RN; a “Praia Vermelha”, que é, na verdade, a “Praia de Ponta Negra” (Natal/RN), como explica a autora nos escritos extras, ao final do livro.

A familiaridade demonstrada pela escritora com os ambientes onde se desenrola o novelo das histórias, através de uma riqueza de detalhes, dá vida à obra e confere consistência ao que é narrado. Por outro lado, e talvez devido à sua vivência na área da psicologia, as personagens são bem caracterizadas em seu perfil e em seus traços pessoais. Imagino que algumas delas são meio que baseadas em desejos ocultos da própria autora - mas confessos nos extras - como a de ser arqueóloga, tal como a personagem Beatriz do conto “Os ossos do revolucionário”. Aliás, este foi um dos contos que mais me chamou a atenção, pois além de se inspirar numa figura emblemática da história do Rio Grande do Norte, André de Albuquerque, mostra a personagem central, Beatriz, como uma profissional apaixonada e inteiramente tomada pelo que faz, tal como a autora o demonstra com a literatura. Assim, a realidade imita a fantasia e vice-versa. 

Desse modo, fiquei impressionado com a magia de sua narrativa, ancorada em fatos históricos, em achados do seu baú de escritora/pesquisadora, que consegue, com mestria, mesclar realidade e ficção.  A maneira com que as histórias são montadas revela a arte de quem sabe dosar o momento exato de revelar ou de esconder, de sugerir. Tudo isso contribui para uma leitura agradável, pois nada é gratuito na obra: detalhes ganham importância e intrigam o leitor, como, por exemplo, o desafio lançado para que se descubra quem personifica o lobisomem de um dos contos. 

A autora se mostra, antes de mais nada, alguém que tem um olhar atento, contemporâneo e que sabe construir personagens – diga-se de passagem, uma boa galeria deles -  e tem um jeito especial de conduzir o fio da narrativa com o requinte descritivo dos cenários e a localização dos acontecimentos contextualizados em diferentes épocas (Século XVIII, 1930, 1980 e  1990, por exemplo).

Ao final do livro, o leitor fica ainda mais grato à autora pelas revelações de algumas particularidades de influências nessa obra, principalmente de autores como Stephen King, Conan Doyle, Oscar Wilde e até mesmo inspiração advinda de seriado da Netflix. A explicação da gênese  de cada conto serve como leitura suplementar que enriquece sobremaneira a obra e mostra o cuidado e o compromisso da contista com o seu ofício. São curiosidades que permitem o estabelecimento de uma certa cumplicidade do leitor com a escritora. Com certeza, esses textos adicionais serão muito úteis, principalmente para o caso de a obra vir a ser estudada em escolas, respondendo a prováveis indagações de mestres e alunos, ao mesmo tempo em que servem como guia de leitura. 

Gostei de todos os contos, mas faço um destaque para três deles: “O fantasma do edifício 21 de março”, “A encruzilhada do diabo” e “O estranho cemitério de Serrote do Junco”.

No primeiro, chamou-me a atenção a inusitada solução encontrada para o desfecho da história – do qual não vou fazer spoiler - que traz à baila fenômenos interessantes à moda dos “poltergeists”, com uma certa dose de leveza e até mesmo de bom humor no enredo. Encontrei alguns traços da autora na sua personagem Andreia, escritora, que gosta de ler Quintana e Drummond, além de estar determinada a escrever uma história infantil. Delicioso o diálogo que a personagem mantém ao teclar com um fantasma em seu notebook. Um conto para ser lido ao som de piano, preferentemente, para se entrar mais ainda no clima da história.  

Quanto ao segundo dentre os mencionados, trata-se de uma retomada dos famosos “tratos com o demônio”, narrado num cenário bem interessante e que mostra de forma instigante o duelo entre o bem e o mal, evidenciando a força e a importância da devoção aos santos. Um culto à fé e ao triunfo do amor. Neste conto, há muito de mágico no momento em que duas das personagens centrais vão fazer a invocação do demo, aboio cortando o silêncio da serra, acompanhado de gaita e viola. As personagens, todas elas, são apaixonantes e emblemáticas, havendo uma certa dose de ironia no fato de um padre estar ali naquele cenário, ele mesmo um dos protagonistas daquele tipo de pacto. Ao aboio segue-se a cantoria dos versos de uma das músicas de Zé Ramalho. Há uma sucessão rápida de acontecimentos inesperados que deixo à responsabilidade do leitor descobrir quando estiver com o livro nas mãos. Adianto apenas que saboreei cada linha dessa narrativa, incluindo a própria descrição dos dois duelantes finais, o cramunhão e a santa, com pormenores que mostram bem o domínio da autora na construção de personagens.

Já o terceiro conto aqui destacado, “O estranho cemitério de Serrote do Junco”, nos delicia com um elenco de ressuscitados, os mortos que voltam à vida, suas peripécias e os novos desfechos do destino desses redivivos. O conto tem uma certa pitada da obra de Veríssimo (Incidente em Antares) e, com certeza, poderia facilmente virar uma novela, tal a riqueza das personagens apresentadas e todas as possibilidades de desdobramentos que elas ensejam. Sem contar com o final do conto, que sugere nova onda de inusitadas ressurreições na pacata cidade serro-junquense. Meus olhos de leitor pediam que a história se estendesse mais.

Posso dizer que todos os onze contos mereceriam algum comentário. Por exemplo, o “A escadaria de Vorontsovisky”, lembrou-me um pouco o estilo da escrita de Marina Colasanti em seus bons momentos de prosa, quando ambienta suas personagens, geralmente príncipes e princesas, em ambientes requintados como o faz aqui a autora, colocando Erina a se deslumbrar com o “salão azul”, todo em turquesa, “com centenas de flores brancas”, lareira de  mármore, “piano de cauda com incrustações em dourado”, o mágico cenário a que a escadaria conduz. Porém o espaço aqui não permite tantas louvações quanto gostaria de fazer. Destacar um ou outro conto não significa desmerecimento aos demais, uma vez que o objetivo deste texto é apenas o de despertar no leitor a vontade de conhecer uma contista potiguar de relevo, que merece ser lida, relida, estudada e divulgada ao máximo que se puder. Não é todo o dia que nos deparamos com uma escrita tão convidativa, agradável e consistente, tanto na forma quanto no conteúdo. Escrever contos é uma arte. E, sem dúvida, bem dominada por Ana Cláudia Trigueiro. Fico, então, na expectativa de que ela continue a escavar - como a sua personagem Beatriz -  camadas após camadas de seus guardados no baú, de onde sairão, imagino, não só outros contos extraordinários, como também novos romances, novelas e livros destinados à faixa infantil e infantojuvenil. Serão presentes que eu, particularmente, aguardo ansioso.

Confesso minha alegria em perceber que existem domingos, livros e autoras desse quilate que nos fazem viajar e nos encantam com a força e a magia de narrativas tão singulares como as que encontramos nessa obra publicada pela CJA em 2018.  Com certeza, um livro que faz história dentro do gênero conto, representando um dos bons momentos da literatura que se pratica hoje no Rio Grande do Norte. Recomendo a leitura, com algumas estrelas. Aliás, com uma constelação.  Aqui existe brilho. Está feito o convite.

*José de Castro, jornalista, escritor, poeta e autor de livros para crianças (A Marreca de Rebeca, A cozinha da Maria Farinha, Poemares, Vaca amarela pulou a janela, dentre outros). E autor de livros de poemas para adultos (Apenas palavras e Quando chover estrelas). Membro da SPVA/RN, UBE/RN e da ALACIB/Mariana /MG. Contato: josedecastro9@gmail.com


A IRA DE JUDAS – contos assombrados
Ana Cláudia Trigueiro, Natal: CJA, 2018, 135 p.


Três poemas da polonesa Wislawa Szymborska



As três palavras mais estranhas

Quando eu pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu pronuncio a palavra Silêncio,
Eu o destruo.
Quando eu pronuncio a palavra Nada,
Eu faço algo que nenhum não-ser pode reter.


O fim e o início

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e consequências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.


Museu

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.
Há um leque –onde os rubores?
Há espada– onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.
Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias (…)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a uva.
A bota direita derrotou a perna.
Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
Como ele adoraria sobreviver!


TRÊS POEMAS DE FERNANDO PESSOA



Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


O guardador de rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

A POESIA DA SAUDADE



Um dia para lembrar com mais apuro a poesia do VELHO CHINA, de HELOISA GALVEZ, CAITO SPINA e ÂNGELA OITICICA, BENTO CALAÇA, ÉRICA CRISTIANE e MÚCIO GÓES

ENGANOS
VÉIO CHINA
A dor se manifesta, mas não se imprime
Em tonalidade de lamentos, ou se lança
Ao calor dos beijos que passado refuta
Ou aos murmúrios cálidos de um amor
Que muitos sabem, desabou fracassado

Dores não se alardeiam ou partilham
São solitudes pactuando penitencias
Ao silêncio das paredes dum quarto
Repleto de roupas, livros, cobertores
Cúmplices mudos à ordem dos fatos

Assim é a dor; um eterno desafio a autoestima
Privilegiado aquele que por ela se sentir tocado
Pois paulatinamente sem notar, os insensíveis
Amargam-se abandonados como um cão vadio
Refém da rudeza duma vida onde não há afago

Logo, dor maior é aquela que nos trancafia na redoma das inverdades
Nas mentiras ditas por nós aos nossos olhos encharcados de poeiras
A vislumbrar ansiedades que persistem, mas recusam o arfar do peito
Na farsa consentida pelo coração que ao tempo transformou cúmplice
O pulsar cruel e disrítmico diante a fragilidade nostálgica das emoções

Copirraiti17Mai2014


DO MEU LADO
CAITO SPINA
Nada mais lícito
Que teu querer tão lúcido
E assim tão justo
O teu desejo puro.

E no meu mundo
Esse olhar noturno
E o teu contorno
Sobre meus dedos finos.

Corre em teu corpo
Meus lábios tão sedentos
E no meu peito
Esse amor imenso,

Que até penso
Que ainda estou sonhando,
E amanheço
Contigo do meu lado.


ÁGUA
HELOISA GALVEZ
E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.

Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.

Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.

Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.
Porque sou Água.


FIRMAMENTO
ÂNGELA OITICICA

lógica longínqua
num gesto
ocorre
a evolução de um firmamento
abotoado e até grudado de
impressões
carrega sofismático
bandalheira
dor
alegria
prantos de dúvidas
lustres de gargalhadas
novenas de perguntas
partidas sem serem convidadas
chegadas enevoadas
enxuga o tempo
levantam folhas
em currupio ao vento
e eu o homem
a mulher
o que faço nisso
estrago? planto?
modesto pranto
duvidoso aceno mais uma vez
pergunto
o que faço nisto
insisto
não penso
já não creio
e no entanto
carrego eu
um firmamento
mas, olho o do outro
se tenebroso gasoso
aromático
(será cheiroso)
o meu se expande em um outro
longe
e eu então viro de costas
sem encontrar o meu
pertence a outrem
(será belo)
será este firmamento
um pacote lembrando
nuvens dobradas
amarrado por um cordão
de estrelas
caído em laço
me lastimo passando
a limpo
o firmamento de outro eu
que não é o meu


DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO
BENTO CALAÇA

O mar visto da pedra onde estou
transborda pelas manhãs
de peixes e pássaros

não eram minhas as mensagens
que recebia em garrafas na praia
mas com o tempo foram sendo...
fiz verdades em garrafas de outros.

Eu, que nunca tive um Deus
com quase meio século
descubro ser o meu Deus
o mar.
Temperamental e traiçoeiro
às vezes manso como um cordeiro
dissolve-se em sal no azul do céu
enquanto gaivotas, voam penas
feito folhas.
Ateei fogo ao passado
para dormir em travesseiros de cinzas
e da ilha dos sonhos
nunca mais voltar
Engolido pelo pôr do sol


ANTROPOFAGIA
ÉRICA CRISTIANE

Centímetro por centímetro
degustas.
consomes lentamente,
com todos os teus quatro sentidos,
minha pele esbranquiçada
e meus pelos eriçados.

Correm os teus dedos por toda que sou,
tuas mãos me decoram
numa escuridão que eu não percebo.
prova meus poros
intempestivamente.

E já que tua língua te revelou
minha alma, minha matéria e o resto que teus olhos não veem.
e já que arrancaste
pedaços do meu corpo,
e preparaste a carne
com teu enigma de esfinge,
agora devora-me
matando tua fome.

Começando pelos pés.


A VERVE DE MÚCIO GOÉS

converso com versos,
a poesia é o trem
em que me expresso.


meu coração
é líquido correndo
nas artérias do poema.


quando
medito
me edito


a moça
que dança ciranda,
folia na borda
do poema.