Três poemas da polonesa Wislawa Szymborska



As três palavras mais estranhas

Quando eu pronuncio a palavra Futuro
a primeira sílaba já pertence ao passado.
Quando eu pronuncio a palavra Silêncio,
Eu o destruo.
Quando eu pronuncio a palavra Nada,
Eu faço algo que nenhum não-ser pode reter.


O fim e o início

Depois de toda guerra
alguém tem que fazer a faxina.
As coisas não vão
se ajeitar sozinhas.
Alguém tem que tirar
o entulho das ruas
para que as carroças possam passar
com os corpos.
Alguém tem que abrir caminho
pelo lamaçal e as cinzas,
as molas dos sofás,
os cacos de vidro,
os trapos ensanguentados.
Alguém tem que arrastar o poste
para levantar a parede,
alguém tem que envidraçar a janela,
pôr as portas no lugar.
Não é fotogênico
e leva anos.
Todas as câmeras já foram
para outra guerra.
Precisamos das pontes
e das estações de trem de volta.
Mangas de camisas ficarão gastas
de tanto serem arregaçadas.
Alguém de vassoura na mão
ainda lembra como foi.
Alguém escuta e concorda
assentindo com a cabeça ilesa.
Mas haverá outros por perto
que acharão tudo isso
um pouco chato.
De vez em quando alguém ainda
tem que desenterrar evidências enferrujadas
debaixo de um arbusto
e arrastá-las até o lixo.
Aqueles que sabiam
o que foi tudo isso,
têm que ceder lugar àqueles
que sabem pouco.
E menos que pouco.
E finalmente aos que não sabem nada.
Alguém tem que deitar ali
na grama que cobriu
as causas e consequências,
com um matinho entre os dentes
e o olhar perdido nas nuvens.


Museu

Há pratos, mas falta apetite.
Há alianças, mas o amor recíproco se foi
há pelo menos trezentos anos.
Há um leque –onde os rubores?
Há espada– onde a ira?
E o alaúde nem ressoa na hora sombria.
Por falta de eternidade
juntaram dez mil velharias (…)
A coroa sobreviveu à cabeça.
A mão perdeu para a uva.
A bota direita derrotou a perna.
Quanto a mim, vou vivendo, acreditem.
Minha competição com o vestido continua.
E que teimosia a dele!
Como ele adoraria sobreviver!


TRÊS POEMAS DE FERNANDO PESSOA



Tabacaria

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo.
que ninguém sabe quem é
( E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes
e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.


Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado
[sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe — todos eles príncipes — na vida…

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos — mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.


O guardador de rebanhos

Eu nunca guardei rebanhos,
Mas é como se os guardasse.
Minha alma é como um pastor,
Conhece o vento e o sol
E anda pela mão das Estações
A seguir e a olhar.
Toda a paz da Natureza sem gente
Vem sentar-se a meu lado.
Mas eu fico triste como um pôr de sol
Para a nossa imaginação,
Quando esfria no fundo da planície
E se sente a noite entrada
Como uma borboleta pela janela.

Mas a minha tristeza é sossego
Porque é natural e justa
E é o que deve estar na alma
Quando já pensa que existe
E as mãos colhem flores sem ela dar por isso.

Como um ruído de chocalhos
Para além da curva da estrada,
Os meus pensamentos são contentes.
Só tenho pena de saber que eles são contentes,
Porque, se o não soubesse,
Em vez de serem contentes e tristes,
Seriam alegres e contentes.

Pensar incomoda como andar à chuva
Quando o vento cresce e parece que chove mais.

Não tenho ambições nem desejos
Ser poeta não é uma ambição minha
É a minha maneira de estar sozinho.

E se desejo às vezes
Por imaginar, ser cordeirinho
(Ou ser o rebanho todo
Para andar espalhado por toda a encosta
A ser muita cousa feliz ao mesmo tempo),

É só porque sinto o que escrevo ao pôr do sol,
Ou quando uma nuvem passa a mão por cima da luz
E corre um silêncio pela erva fora.

A POESIA DA SAUDADE



Um dia para lembrar com mais apuro a poesia do VELHO CHINA, de HELOISA GALVEZ, CAITO SPINA e ÂNGELA OITICICA, BENTO CALAÇA, ÉRICA CRISTIANE e MÚCIO GÓES

ENGANOS
VÉIO CHINA
A dor se manifesta, mas não se imprime
Em tonalidade de lamentos, ou se lança
Ao calor dos beijos que passado refuta
Ou aos murmúrios cálidos de um amor
Que muitos sabem, desabou fracassado

Dores não se alardeiam ou partilham
São solitudes pactuando penitencias
Ao silêncio das paredes dum quarto
Repleto de roupas, livros, cobertores
Cúmplices mudos à ordem dos fatos

Assim é a dor; um eterno desafio a autoestima
Privilegiado aquele que por ela se sentir tocado
Pois paulatinamente sem notar, os insensíveis
Amargam-se abandonados como um cão vadio
Refém da rudeza duma vida onde não há afago

Logo, dor maior é aquela que nos trancafia na redoma das inverdades
Nas mentiras ditas por nós aos nossos olhos encharcados de poeiras
A vislumbrar ansiedades que persistem, mas recusam o arfar do peito
Na farsa consentida pelo coração que ao tempo transformou cúmplice
O pulsar cruel e disrítmico diante a fragilidade nostálgica das emoções

Copirraiti17Mai2014


DO MEU LADO
CAITO SPINA
Nada mais lícito
Que teu querer tão lúcido
E assim tão justo
O teu desejo puro.

E no meu mundo
Esse olhar noturno
E o teu contorno
Sobre meus dedos finos.

Corre em teu corpo
Meus lábios tão sedentos
E no meu peito
Esse amor imenso,

Que até penso
Que ainda estou sonhando,
E amanheço
Contigo do meu lado.


ÁGUA
HELOISA GALVEZ
E sendo água, sou tudo e nada.
Oceano que ameaça o planeta.
Rio que leva embarcações,
transporto sobre mim, cartas, pessoas, esperanças...
Repousam em meu leito, espíritos de afogados que formam ali seu clã.
Assim me transformo em inferno e paraíso.
Morte e vida.
Sou vida, quando sou chuva,
Mato nas tempestades,
Salvo quem morre de sede,
Mato quando “explodo” as barreiras, que prendem: Eu Represa.

Sou Água
A Lagoa das lavadeiras
O Esgoto de imundos dejetos
Sou passiva, sou nociva,
Necessária, corrompida,
Todos têm muito de mim...
Ninguém tem tudo que sou.

Sendo água não sou porto,
Eu nenhum lugar me encontro
Se me prendem, evaporo...
Se me soltam, seco e morro.

Mas renasço em cada lágrima,
De dor, de alegria,
Acolho ecossistemas, escrevem coisas sobre mim,
Contemplam minha beleza, me execram, amaldiçoam...
E assim eu venho e vou
Subo, desço,
Mato e salvo,
E nunca Sou.
Porque sou Água.


FIRMAMENTO
ÂNGELA OITICICA

lógica longínqua
num gesto
ocorre
a evolução de um firmamento
abotoado e até grudado de
impressões
carrega sofismático
bandalheira
dor
alegria
prantos de dúvidas
lustres de gargalhadas
novenas de perguntas
partidas sem serem convidadas
chegadas enevoadas
enxuga o tempo
levantam folhas
em currupio ao vento
e eu o homem
a mulher
o que faço nisso
estrago? planto?
modesto pranto
duvidoso aceno mais uma vez
pergunto
o que faço nisto
insisto
não penso
já não creio
e no entanto
carrego eu
um firmamento
mas, olho o do outro
se tenebroso gasoso
aromático
(será cheiroso)
o meu se expande em um outro
longe
e eu então viro de costas
sem encontrar o meu
pertence a outrem
(será belo)
será este firmamento
um pacote lembrando
nuvens dobradas
amarrado por um cordão
de estrelas
caído em laço
me lastimo passando
a limpo
o firmamento de outro eu
que não é o meu


DIÁRIO DE UM NÁUFRAGO
BENTO CALAÇA

O mar visto da pedra onde estou
transborda pelas manhãs
de peixes e pássaros

não eram minhas as mensagens
que recebia em garrafas na praia
mas com o tempo foram sendo...
fiz verdades em garrafas de outros.

Eu, que nunca tive um Deus
com quase meio século
descubro ser o meu Deus
o mar.
Temperamental e traiçoeiro
às vezes manso como um cordeiro
dissolve-se em sal no azul do céu
enquanto gaivotas, voam penas
feito folhas.
Ateei fogo ao passado
para dormir em travesseiros de cinzas
e da ilha dos sonhos
nunca mais voltar
Engolido pelo pôr do sol


ANTROPOFAGIA
ÉRICA CRISTIANE

Centímetro por centímetro
degustas.
consomes lentamente,
com todos os teus quatro sentidos,
minha pele esbranquiçada
e meus pelos eriçados.

Correm os teus dedos por toda que sou,
tuas mãos me decoram
numa escuridão que eu não percebo.
prova meus poros
intempestivamente.

E já que tua língua te revelou
minha alma, minha matéria e o resto que teus olhos não veem.
e já que arrancaste
pedaços do meu corpo,
e preparaste a carne
com teu enigma de esfinge,
agora devora-me
matando tua fome.

Começando pelos pés.


A VERVE DE MÚCIO GOÉS

converso com versos,
a poesia é o trem
em que me expresso.


meu coração
é líquido correndo
nas artérias do poema.


quando
medito
me edito


a moça
que dança ciranda,
folia na borda
do poema.

SEXTA-FEIRA À NOITE ► MARINA COLASANTI



Sexta-feira à noite
os homens acariciam o clitóris das esposas
com dedos molhados de saliva.
O mesmo gesto com que todos os dias
contam dinheiro papéis documentos
e folheiam nas revistas
a vida dos seus ídolos.

Sexta-feira à noite
os homens penetram suas esposas
com tédio e pênis.
O mesmo tédio com que todos os dias
enfiam o carro na garagem
o dedo no nariz
e metem a mão no bolso
para coçar o saco.

Sexta-feira à noite
os homens ressonam de borco
enquanto as mulheres no escuro
encaram seu destino
e sonham com o príncipe encantado.

TREZE POETRIX DOS OLHOS TEUS


Por José de Castro

1.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Névoas de distância.
Brumas de saudade.
Silêncio, solidão.

02.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Desejos ocultos.
Paraísos prometidos.
E_ternuras de prazer.

03.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Enigmas.
Mistério.
Primaveras, talvez.

04.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Olhar de princesa.
Brilho de sereia.
Encantos de luar.

05.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Um quê de Monalisa.
Encanto Sherazade.
Mil e uma histórias de amor.

06.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Zombaria dos deuses.
Ironia do destino.
Um quem sabe, um talvez.


07.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
O infinito a se abrir
imensidões, cachoeiras
açucenas em flor


08.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Simplicidade de orvalho
sereno contemplar
manhãs em flor.


09.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Pétala de esperança
Um beijo, fio de nada
Promessa de tudo.

10.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Abrir de portas e janelas
Horizontes sem fim
Além do além de tudo.


11.
O QUE VEJO NOS TEUS OLHOS
Anplidões, mil galáxias
O infinito azul
Portais de eternidade

12.
SEM O BRILHO DO TEU OLHAR
Sou estrela sem norte
Barco sem vela
Navio sem cais

13.
DENTRO DOS TEUS OLHOS
Vi a face do tempo
O sorriso da alegria
Eternidade, aqui. 

► José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Autor de livros para adultos e para crianças. Algumas de suas obras: A marreca de Rebeca, O mundo em minhas mãos, Poemares, Poetrix, Dicionário Engraçado, A cozinha da Maria Farinha, Poemas Brincantes, Vaca Amarela pulou a janela, Meu amigo paladar (com Antônio Francisco), O Palhaço e a Bailarina (com Clécia Santos), Um livro, um castelo. Membro da SPVA/RN, da UBE/RN e da ALACIB/Mariana-MG. Contato: josedecastro9@gmail.com




CANTO I ► EZRA POUND



E pois com a nau no mar,
Assestamos a quilha contra as vagas
E frente ao mar divino içamos vela
No mastro sobre aquela nave escura,
Levamos as ovelhas a bordo e
Nossos corpos também no pranto aflito,
E ventos vindos pela popa nos
Impeliam adiante, velas cheias,
Por artifício de Circe,
A deusa benecomata.
Assim no barco assentados
Cana do leme sacudida em vento
Então com vela tensa, pelo mar
Fomos até o término do dia.
Sol indo ao sono, sombras sobre o oceano
Chegamos aos confins das águas mais profundas.
Até o território cimeriano,
E cidades povoadas envolvidas
Por um denso nevoeiro, inacessível
Ao cintilar dos raios de sol, nem a
O luzir das estrelas estendido,
Nem quando torna o olhar do firmamento
Noite, a mais negra, sobre os homens fúnebres.
Refluindo o mar, chegamos ao local
Premeditado por Circe.
Aqui os ritos de Perímedes e Euríloco e
“De espada a cova cubital escavo”.
Vazamos libações a cada morto,
Primeiro o hidromel, depois o doce
Vinho mais água com farinha branca.
E orei pela cabeça dos finados;
Em Ítaca, os melhores touros estéreis
Para imolar, cercada a pira de oferendas,
Um carneiro somente de Tirésias,
Carneiro negro e com guizos.
Sangue escuro escoou dentro do fosso,
Almas vindas do Erebus, mortos cadavéricos,
De noivas, jovens, velhos, que muito penaram;
Úmidas almas de recentes lágrimas,
Meigas moças, muitos homens
Esfolados por lanças cor de bronze,
Desperdício de guerra, e com armas em sangue
Eles em turba em torno de mim, a gritar,
Pálido, reclamei-lhes por mais bestas;
Massacraram os rebanhos, ovelhas sob lanças;
Entornei bálsamos, clamei aos deuses.
Plutão, o forte, e celebrei Prosérpina;
Desembainhada a diminuta espada,
Fiquei para afastar a fúria dos defuntos,
Até que ouvisse Tirésias.
Mas primeiro veio Elpenor, o amigo Elpenor,
Insepulto, jogado em terra extensa,
Membros que abandonamos em casa de Circe,
Sem agasalho ou choro no sepulcro,
Já porque outras labutas nos urgiam.
Triste espírito. E eu gritei em fala rápida:
“Elpenor, como veio a esta praia escura?
Veio a pé, mais veloz que os marinheiros?”
….E ele, taciturno:
“Azar e muito vinho. Adormeci
Na morada de Circe ao pé do fogo.
Descendo a escadaria distraído
Desabei sobre a pilastra,
Com o nervo da nuca estraçalhado,
O espírito procurou o Avernus.
Mas, ó Rei, me lembre, eu peço,
E sem agasalho ou choro,
Empilhe minhas armas numa tumba
À beira-mar com esta gravação:
Um homem sem fortuna e com um nome a vir.
E finque o remo que eu rodava entre os amigos
Lá, ereto, sobre a tumba.”
Veio Anticléia, a quem eu repelia,
E então Tirésias tebano,
Levando o seu bastão de ouro, viu-me
E falou primeiro:
“Uma segunda vez? Por quê? homem de maus fados,
Face aos mortos sem sol e este lugar sem gáudio?
Além do fosso! eu vou sorver o sangue
Para profecia.”
….E eu retrocedi,
E ele, vigor sangüíneo: “Odysseus
Deverás retornar por negros mares
Através dos rancores de Netuno,
Todos teus companheiros perderás.”
Depois veio Anticléia.
Divus, repouse em paz, digo, Andreas Divus,
In officina Wecheli, 1538, vindo de Homero.
E ele velejou entre sereias ao
largo e além até Circe.
….Venerandam,
Na frase em Creta, e áurea coroa, Afrodite,
Cypri munimenta sortita est, alegre, orichalchi, com dourados
Cintos, faixas nos seios, tu, com pálpebras de ébano
Levando o ramo de ouro de Argicida. Assim:


UM SONHO


Um poema de Edgar Allan Poe

SONHEI, entre visões da noite escura,
com a alegria morta, mas meu sonho
de vida e luz me despertou, tristonho,
com o coração partido de amargura.

Ah! que não vale um sonho à luz do dia
para aquêle que os olhos traz cravados
nas coisas que o rodeiam e os desvia
para tempos passados?

Aquêle santo sonho, sonho santo,
enquanto o mundo repelia o pária,
deu-me o confôrto, como luz de encanto
a conduzir uma alma solitária.

E embora a luz, por entre a tempestade
e a noite, assim tremesse, tão distante,
que poderia haver de mais brilhante
no claro sol da estrêla da Verdade?

NOS BRAÇOS DA POESIA


Um poema de Sophia Vargas

Nasci
nos braços
da poesia
Num berço de alegria.
Eu aprendi a amar...

É tão bom dar
Bom Dia.
Observar o belo...
Até um
passarinho que pia...
E um barco no mar
a navegar...

Todos nós somos
poetas..
Basta olhar ao seu redor
Tudo que se vê é poesia
Só falta você admirar...

VERSOS ESPALHADOS PELO CÉU


Um poema de Claire Feliz Regina
Trovões fortes, estampidos
e até mortes,
é o que temos para colher
e onde temos que viver.
Mas não é sempre assim,
o poeta espalha versos
e abre portas de jardins.
Nestes jardins,
não há nuvens de estilhaços,
ensanguentando todo o espaço,
nem inocentes pagando pelo réu.
Aqui temos flores e versos,
espalhados pelo céu,
tudo muda no universo,
quando colhemos flores e versos.
Que o mundo é menos triste
e até que o amor existe,
você acredita quando lê
os versos que o poeta faz.
Continuem, poetas,
jogando versos pelo ar,
fazendo um caminho de rimas,
mesmo sem saber,
se alguém vai ler
ou onde é que eles vão parar?

POR UM ACASO


Um poema da poeta polonesa Wislawa Szymborska 

Poderia ter acontecido.
Teve que acontecer.
Aconteceu antes. Depois. Mais perto. Mais longe.
Aconteceu, mas não com você.
Você foi salvo pois foi o primeiro.
Você foi salvo pois foi o último.
Porque estava sozinho. Com outros. Na direita. Na esquerda.
Porque chovia. Por causa da sombra.
Por causa do sol.
Você teve sorte, havia uma floresta.
Você teve sorte, não havia árvores.
Você teve sorte, um trilho, um gancho, uma trave, um freio,
um batente, uma curva, um milímetro, um instante.
Você teve sorte, o camelo passou pelo olho da agulha.
Em conseqüência, porque, no entanto, porém.
O que teria acontecido se uma mão, um pé,
a um passo, por um fio
de uma coincidência.
Então você está aí? A salvo, por enquanto, das tormentas em curso?
Um só buraco na rede e você escapou?
Fiquei mudo de surpresa.
Escuta,
como seu coração dispara em mim.

CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA


DEZ POETRIX DE JOSÉ DE CASTRO


01.

CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Trago-te um sorriso de estrela..
Uma roda gigante.
Uma ternura em caracol.
  
02.

NUMA CAIXA DE FÓSFOROS

Guardo um raio de sol.
Milhões de vaga-lumes.
Meu peito é girassol.
  
03.
CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Ternura em cachos.
Sorriso em pencas.
Eterna primavera.
  
04.

MEU CORAÇÃO PARECE 

Águia no infinito azul.
Borboleta amarela.
Escaravelho lápis-lazúli.

05.

CORAÇÃO DE POETA É CRIANÇA

Reivento a vida ao vento.
Bailarino do tempo.
Viro mundo de pernas pro ar.
  
06.

UM DIA, MARIA FUMAÇA

Resfolega arco-íris.
Destino ao longe apita.
Coração fora do trilho. 

07.

CORAÇÃO DE POETA INVENTA TUDO

Um elefante que flutua.
Um navio-foguete.
Sol que namora lua.


08.

CORAÇÃO DE POETA NAVEGA O TEMPO

Nos teus braços entardeci.
Fiz-me pôr do sol.
Luar nasceu em mim.

09.

CORAÇÃO DE POETA MENINO

Revira o mundo.
Veleja no sonho.
Inventa amplidões.

10.

CORAÇÃO DE POETA VIAJA

Onde vais tu?
Ali, na esquina do sonho. 
Encontrar o impossível.   


*José de Castro, jornalista, escritor, poeta. Escreve também para crianças. Livros recentes: Vaca amarela pulou a janela, O Palhaço e a Bailarina (com Clécia Santos) e Um livro, um castelo. Membro da SPVA/RN, da UBE/RN e da Academia de Letras, Artes e Ciências Brasil – ALACIB/Mariana/MG. Contato: josedecastro9@gmail.com