POEMAS DE DESPEDIDA


Com Marina Tzvietáieva • Manuel Bandeira • Radyr Gonçalves • Edy Gonçalves • Débora Mitrano • Érica Cristiane • Auta de Souza • Nassary Lee Bahar • João Cabral de Melo Neto • Carlos Drummond de Andrade • Cecília Meireles • Mia Couto • Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)



Poema do fim
Marina Tzvietáieva
Como a pedra afia a faca,
Como ele desliza a serragem ao varrer,
Assim, a pele aveludada
De súbito, entre os dedos. Úmida.

Oh dupla coragem, sequidão -
Dos homens, onde está você,
Se em minhas mão há lágrimas
E não chuva?

A água é da fortuna
O que mais poderia querer?
Se teus olhos são diamantes
Que se vertem em minhas palmas,

Já não perco
Nada. Fim do fim.
Carícias, abraços
- Eu acariciava tua face.

Assim somos, orgulhosos
E polacas – Marina -,
Quando chove em minhas mãos
Olhos de águia:

Você chora? Meu amor,
Meu tudo: me perdoe.
Pedras de sal
Caem em minhas mãos.

Planto de homem, veia,
Na cabeça recostada.
Gritos. Outra te devolverá
A vergonha que te fiz deixar.

Somos dois peixes
Dos meus – meu – seu – meu mar
Duas conchas mortas
Lábio contra lábio.

Todas as lágrimas.
sabor
Um oráculo
- O que acontecerá
quando
Despertares?


O Último Poema
Manuel Bandeira
Assim eu quereria meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.


Canção de adeus
Radyr Gonçalves
Um último fio de luz engolfa meus olhos
Atravesso em silêncio o túnel temido
Nunca tive tanta coragem na vida
Tanta pressa para que um verso termine

Há um barbante que vai demarcando o caminho
Um grande espelho – um anjo vestido de linho
Mas eu não o vejo – eu apenas sei, eu apenas sinto

Não faço uma última prece para nenhum santo
Deixo fragmentos de mim por todos os cantos
Porém, nenhuma carta, bilhete ou coisa que o valha

Deixo uma pipa amarrada na calha – (eu adoro as pipas)...
Tantos avisos deixei – hoje eu sei quando ouço minha própria voz
Sou meu poeta preferido, meu destempero, meu algoz

Aquele que no último adeus ainda escreve
Verso pouco, pequeno, verso breve
Verso pálido, embranquecido, versos tolos, versos meus

Cantilena floreada no coro uníssono de um adeus!

... Um último fio de luz engolfa meus olhos.


Nunca Mais
Edy Gonçalves
Nunca mais dos teus olhos os astros,
Nunca mais dos teus poros delícias,
Nunca mais dos teus dedos carícias,
Mais brilhantes, porém, nossos rastros.

Nunca mais o voejar contigo,
Nunca mais um amor verdadeiro,
Nunca mais viração do teu cheiro.
Tudo morto... Mas vive comigo.

Ao pensar no que sou, reconheço:
Não sou mais que lembranças fatais.
Se a beleza perdeu-se, esmoreço

Nesta vida e caminho pra trás.
Ouço o corvo de Poe e enlouqueço:
Nunca mais... Nunca mais... Nunca mais...


Sobre Cheiros e Despedidas
Débora Mitrano
Há um cheiro de doença e despedida,
no fio dos meus cabelos.

Eles caem no ralo em fios grandes,
unidos uns aos outros
Há um cheiro de perfume velho no meu peito
e minhas terminações nervosas sofrem.

A floresta de uma só árvore significa minha solidão.
Os frutos caindo no chão é a dificuldade em chegar até mim.
A doença não me define.

As clínicas psiquiátricas servem para transformar pessoas em ratos de laboratório.

Meus cabelos não param de cair.
As despedidas nunca são anunciadas,
mas algumas são sentidas secretamente
no momento em que se são despedidas.
Gosto de escutar American Football
antes de dormir.
Never Meant.

4:28 de nostalgia.
Os remédios as vezes ajudam,
mas os pensamentos psicóticos continuam.
Bebo cerveja sem álcool para entrar na realidade.
O que é poesia?.
Senão a arte de esquecer.
Há um cheiro de despedida na minha casa,
ela fede a desilusão.

Um cheiro de despedida nos meus cabelos,
em que tua mão afagou.
Um cheiro de enfermidade nos meus vestidos.
Doença e despedida:
dois segmentos da mesma medida.

Poeminha final
Érica Cristiane
gente nova não deveria morrer
de nenhuma morte.
ainda mais tão nova
ainda mais tão gente.
com a morte na velhice, a alma se consola
quase que silenciosamente
como se aceitasse uma lei
que o coração já prevê.
mas com gente nova, não.
gente que mal começou a ver e ouvir a vida
e que nem conheceu todos os passos
de todas as danças
não deveria dar de cara com o fim
deveria ficar mais e passar por tudo que é da vida
obrigatoriamente.
e embriagar-se de loucuras secretas
e gozar de flores e estrelas no meio da madrugada.
gente nova deveria viver
em vez de ir descansar em paz.

(em homenagem a Rafaella Leoa, borderline #RIP2016)


Never More
Auta de Souza
                                                 A uma falsa amiga

I

Não te perdôo, não, meu tristes olhos
Não mais hei de fitar nos teus, sorrindo:
Jamais minh’alma sobre um mar de escolhos
Há de chamar por ti no anseio infindo.

Jamais, jamais, nos delicados folhos
Do coração como n’um ramo lindo,
Há de cantar teu nome entre os abrolhos
A ária gentil de meu sonhar já findo.

Não te perdôo, não! E em tardes claras,
Cheias de sonhos e delícias raras,
Quando eu passar à hora do Sol posto:

Não rias para mim que sofro e penso,
Deixa-me só neste deserto imenso...
Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!

II

Ah! se eu pudesse nunca ver teu rosto!
E nem sequer o som de tua fala
Ouvir de manso à hora do Sol posto
Quando a Tristeza já do Céu resvala!

Talvez assim o fúnebre desgosto
Que eternamente a alma me avassala
Se transformasse n’um luar de Agosto,
Sonho perene que a Ventura embala.

Talvez o riso me voltasse à boca
E se extinguisse essa amargura louca
De tanta dor que a minha vida junca...

E, então, os dias de prazer voltassem
E nunca mais os olhos meus chorassem...
Ah! se eu pudesse nunca ver-te, nunca!


Não por mim
Nassary Lee Bahar
Há em ti um muro,
não pulo!
Há em ti um medo,
és inseguro em segredo
Há na carne e no pensamento
requerer e recusa a um só tempo
Há recesso, reticência e redoma
Mas não queres ser assim: bolha
Era tua: escolha
Era tarde para ti
Tarde e pouco
És louco... Não por mim.


O fim do mundo
João Cabral de Melo Neto
No fim de um mundo melancólico
os homens lêem jornais. Homens indiferentes a comer laranjas
que ardem como o sol.

Me deram uma maçã
para lembrar a morte.
Sei que cidades telegrafam
pedindo querosene.
O véu que olhei voar
caiu no deserto.

O poema final
ninguém escreverá
desse mundo particular
de doze horas.
Em vez de juízo final
a mim me preocupa
o sonho final.


Não quero ser o último a comer-te
Carlos Drummond de Andrade
Não quero ser o último a comer-te.
Se em tempo não ousei, agora é tarde.
Nem sopra a flama antiga nem beber-te
aplacaria sede que não arde

em minha boca seca de querer-te,
de desejar-te tanto e sem alarde,
fome que não sofria padecer-te
assim pasto de tantos, e eu covarde

a esperar que limpasses toda a gala
que por teu corpo e alma ainda resvala,
e chegasses, intata, renascida,

para travar comigo a luta extrema
que fizesse de toda a nossa vida
um chamejante, universal poema.


Despedida
Cecília Meireles
Por mim, e por vós, e por mais aquilo
que está onde as outras coisas nunca estão,
deixo o mar bravo e o céu tranqüilo:
quero solidão.

Meu caminho é sem marcos nem paisagens.
E como o conheces? - me perguntarão.
- Por não ter palavras, por não ter imagens.
Nenhum inimigo e nenhum irmão.

Que procuras? - Tudo. Que desejas? - Nada.
Viajo sozinha com o meu coração.
Não ando perdida, mas desencontrada.
Levo o meu rumo na minha mão.

A memória voou da minha fronte.
Voou meu amor, minha imaginação...
Talvez eu morra antes do horizonte.
Memória, amor e o resto onde estarão?

Deixo aqui meu corpo, entre o sol e a terra.
(Beijo-te, corpo meu, todo desilusão!
Estandarte triste de uma estranha guerra...)

Quero solidão.


Poema da Despedida
Mia Couto

Não saberei nunca
dizer adeus

Afinal,
só os mortos sabem morrer

Resta ainda tudo,
só nós não podemos ser

Talvez o amor,
neste tempo,
seja ainda cedo

Não é este sossego
que eu queria,
este exílio de tudo,
esta solidão de todos

Agora
não resta de mim
o que seja meu
e quando tento
o magro invento de um sonho
todo o inferno me vem à boca

Nenhuma palavra
alcança o mundo, eu sei
Ainda assim,
escrevo.



É Talvez o Último Dia da Minha Vida
Alberto Caeiro (Fernando Pessoa)
É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita,
Mas não o saudei, para lhe dizer adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


Canção Final
Carlos Drummond de Andrade
Oh! se te amei, e quanto!
Mas não foi tanto assim.
Até os deuses claudicam
em nugas de aritmética.

Meço o passado com régua
de exagerar as distâncias.
Tudo tão triste, e o mais triste
é não ter tristeza alguma.

É não venerar os códigos
de acasalar e sofrer.
É viver tempo de sobra
sem que me sobre miragem.

Agora vou-me. Ou me vão?
Ou é vão ir ou não ir?
Oh! se te amei, e quanto,
quer dizer, nem tanto assim.

NOS OLHOS AS BRASAS

Um poema de José de Castro

Ser poeta é essa dor que não sara
Ferida aberta que não cicatriza
Oculto mistério, arcano, cabala
Roda que gira sem eixo, sem prumo
Nau a vagar pelos mares da vida
Sem destino, sem bússola, sem rumo
Feito argonauta das velas sem cais
Onde vais senão em busca da estrela
De brilho tosco, de rosto que chora
Lágrima de luz que reluz no horizonte
Ao longe, chama e queima o peito
De um jeito que não se pode explicar
Tristeza não é escolha, é destino
Poeta é menino sem mãe e sem pai
Sem teta, sem leite, nem berço tem
Órfão de tudo, sonho que se esvai
Borrão no espaço, traço sem traço
Aquarela sem tela, sem moldura
Fria escultura de pedra sabão
E no coração o sangue gelado
Das noites vazias em solidão
Ah, poeta, onde está o teu pouso
Na vala dos versos em que cavas
No desvão das palavras silentes
Ou nas tristes rimas que sempre calas?
Nem vento, nem eco respondem
Poeta é um tudo, o nada habitando
Nadando no surfe, esse louco turfe
Retinem os cascos, dura ferradura
Cavalgada de inferno onde as brasas
Ardem nos olhos e tisnam o céu.
(José de Castro, autor de “Apenas Palavras”).


SETE POEMAS DE FERNANDO TANAJURA


Sete poemas em homenagem ao poeta baiano, Fernando Tanajura, falecido no último 25 de dezembro de 2019
A LÁGRIMA

Eu choro à toa, poeta:
de alegria,
de tristeza,
de felicidade,
de melancolia
Eu choro sem ter motivo,
por um motivo qualquer
Eu choro por uma criança
Eu choro por uma mulher
A lágrima já tem sentido
quando se pensa e se fala
mesmo que tenha omitido
a verdade que se cala
Eu choro sempre, poeta:
Seja noite seja dia
seja funeral ou festa
seja canto de alegria
ou da saudade que me resta
A lágrima vive comigo
e é uma coisa sadia
Para mim ela é abrigo,
abrigo da minha poesia


SETE

O gato tem sete vidas
A cova tem sete palmos
Segredo de sete chaves
Semana de sete dias
São sete os sete pecados
A bota de sete léguas
Setembro é nove, não é sete
Na sala tem sete chamas
A igreja de sete colunas
abriga os sete arcanjos
sagrados pintando o sete
gastando os sete centavos
A deusa de sete braços
e sete pernas douradas
domina os sete dragões
de sete patas sagradas
A dança dos sete véus
e os sete beijos do amado
moveram os sete sentidos
e sete sinos dobraram
São tantas coisa com sete
que sete me traz a sorte
Sete vezes tive vida
Sete vezes vi a morte


ORGASMO

Nas nossas vozes
sufocamos
gritos noturnos
proclamando amores

Cercado de flores


FINADOS

Já comprei um caixão preto
com um enfeite azul-lilás
tem um friso prateado
pro meu enterro fugaz
Quero um enterro sem choro
— enterro só de uma vela —
sem carpideiras gritando
e só uma rosa amarela
Que descanse o corpo meu
entre corpos maltratados
que viveu pra ser lembrado
só no Dia de Finados


O BARCO DAS ILUSÕES

Fito o barco a desprender-se do cais
levando todos meus sonhos,
a buscar farrapos de ilusões
Com a alma tecida de espanto
dispo a minha realidade
em um cantochão
Faço das docas meu templo
— banho-me em bacias de bronze
em danças de querubins
Siga, barco,
a procura de adamastores
com seus místicos astrolábios
Desvenda ilhas de jade e
encontra teu destino torto!
Assanha insetos e leões
em tuas derrocadas!
Deixa-me largado na areia
cercado de pedras, a traduzir
as bifurcações dos meus sentimentos!
Quero gemer os partos indivisos,
lavando e esfregando o fero fogo
em pétalas incandescentes
No torvelinho desse braseiro
e nas ossadas expostas de razões,
procuro as meretrizes doutros sonhos
Em vão!
Digladio entre touças do jardim
ferindo o braço,
desencavando máscaras sotopostas,
incensando o porão e o sótão,
mordendo lábios que gotejam ais,
me dando sem medidas com plenitude e abundância,
bebendo um copo do amargo mar
De mãos dadas com a aurora e a tempestade,
palmeio leques de céu laminado de chumbo
Na boca, o gosto de cravo,
saliva grossa de outras águas
em cataratas a escrutinar o sabor das harpas
Que se desgrenhe e desalinhe
em formas abstratas!
Siga, barco,
teu caminho incerto por desconhecidos mares!
Carrega no teu bordo minha viola muda!
Evapora em placas disformes nas curvas do horizonte!
Deixa que o braço, o cais, o jardim, as touças
me devolvam o cristalino e doce ouro!
Deixa-me só
com as mãos envernizadas
a despertar segredos!


AMOR EM OUTRAS ÁGUAS

Sou poesia — tudo sou:
pedaço de cimento,
batom cor de carmim
Tudo sinto em mim —
— amor em outras águas,
tristezas d’outras mágoas
— corro que nem jaguar
Evito o curare
Sou voo tanajura,
cio de barata
cascuda de outras rimas
Canto com o acauã,
recuo da cotia
sendo somente poesia
Cala caju do mato
que estou pra refletir,
correndo como jibóia
Piando qual coruja,
lavo piranhas loucas,
contemplo juruás
e chupo maracujás
Regendo jararacas,
reflito sururús
Maduro açaís,
nasço viúva negra,
transporto tartaruga e
carrego calundú
em forma de calunga
Se isso muito me aperta,
não é que tudo dói?
Jazo caranguejeira,
levanto outra saúva
Machuco o curanchim,
fisgando pirarucu,
comendo meia jaca
Sou chifre de veado
bebendo jurubeba,
piando jurupocas
Faço amor na piroga
por cima da pororoca
e flutuo em nuvem branca,
alva que nem pipoca


FAÇO VERSOS

Faço versos
tal qual quem se desnuda
em público
Livre das minhas
rotas vergonhas,
busco o infinito
Como quem olha do poço,
fitando o céu,
procuro tecer
no papel da alma
meadas de desencontrados sonhos
Sonhos quiçá dilatados,
cinéreos,
aéreos,
de cálculos em oráculos
Firo o papel
com madonas,
gatos selvagens - azuis
- ou mosca tonta,
acabrunhada perante o candeeiro
Tateio o pão
de amianto e
encontro o vento
Longe do vozerio,
coloco na minha canastra
mais um verso

•••

MAIS SOBRE FERNANDO TANAJURA


Nasci no Recôncavo Baiano, mais precisamente, em Nazaré das Farinhas.

Salvador, Rio de Janeiro, Washington, D.C. foram minhas moradas antes de me enraizar em Nova York como planta de asfalto. Tenho os números por formação - Contador & Administrador de Empresas - e as letras por devoção diária: escrevo!

Coloco as mil e uma máscaras quando crio alguma coisa: desdobro-me em personas como num palco - sou muitos em um só, como os fachos da mesma luz.


Foto by Jasper Luth - Sunset in California-USA, 1999.

Prêmios:

- Prêmio Montagem pela Fundação Cultural do Estado da Bahia - A Vaca – 1982

- 3º lugar no I Concurso de Poesias da Revista Alternativa - Boston-MA/EUA - poema “Metade” – 1997

- 2º lugar no I Concurso de Poesias Interfriends - poema “Nem te olho” – 1999

- 2º lugar no I Concurso de Contos Eróticos de Poetas. Mortos - conto “Anna Louca” - 1999


Livros de poesias publicados:


* RETRATOS - Editora João Scortecci - São Paulo/SP - 1a. e 2a. Edições em 1990 e 1991

* COISAS DO CORAÇÃO - Editora João Scortecci - São
Paulo/SP - 1a. e 2a. Edições em 1993 e 1994 (Edições esgotadas)

* RETRATOS e COISAS DO CORAÇÃO (Edição conjunta
dos dois livros & Críticas) - Editora João Scortecci - São Paulo/SP - 1995 (Edição esgotada)

* CÂNTICO DAS ROSAS - Editora João Scortecci - São
Paulo/SP - 1997 (Edição esgotada)

* DOS BEIJOS - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição egotada)

* MUITA POESIA BRASILEIRA - Cadernos das Poesias que estão on-line em Blocos - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição limitada e esgotada)

* 2a. ANTOLOGIA DOS POETAS INTERNAUTAS - Editora Blocos - Maricá/RJ - 1999 (Edição limitada e esgotada)

* e-book FERNANDO TANAJURA - poesias escolhidas por Angela Lara - 2006  http://www.recantodasletras.com.br/escrivaninha/ebooks/index.php

* LIVRO DAS TROVAS - Editora Scortecci - São Paulo-SP - 2016

* ANTOLOGIA ENCONTRO DI-VERSOS - Editora U.S.C.A. - 2017


Teatro:

* A VACA - Encenada na Sala do Coro do Teatro Castro Alves, Salvador/BA - 1982

* O MACACO ASTRONAUTA (El Mono Astronauta) -
Encenada em espanhol no Consulado de Venezuela e no Auditório de la Federación de Entidades Equatorianas - New York/USA - 1998







SETE ALDRAVIAS DE JOSÉ DE CASTRO

(1o. Lugar no I Concurso Internacional de Aldravias de Mariana/MG, 2019)

01.
canto
do
acauã
inaugura
radiosa
manhã

02.
tempo
passa
presente
escorre
vira
fumaça

03.
açucenas
dálias
avencas
bem-me-queres
em
pencas

04.
brilho
de
lua
eterna
saudade
tua

05.
lua
indecente
nua
no
quarto
crescente

06.
noite
negrume
nem
estrela
nem
vaga-lume




07.
águia
no
horizonte
versos
voam
além

(José de Castro, autor de QUANDO CHOVER ESTRELAS)


Poema de Natal • de Vinícius de Moraes


Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados
Para chorar e fazer chorar
Para enterrar os nossos mortos —
Por isso temos braços longos para os adeuses
Mãos para colher o que foi dado
Dedos para cavar a terra.

Assim será nossa vida:

Uma tarde sempre a esquecer
Uma estrela a se apagar na treva
Um caminho entre dois túmulos —
Por isso precisamos velar
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.

Não há muito o que dizer:

Uma canção sobre um berço
Um verso, talvez, de amor
Uma prece por quem se vai —
Mas que essa hora não esqueça
E por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.

Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre
Para a participação da poesia
Para ver a face da morte —
De repente nunca mais esperaremos…
Hoje a noite é jovem; da morte, apenas
Nascemos, imensamente.

Vinícius de Moraes

MINHA HISTÓRIA NESTA ESCOLA


Um poema de Sandra Regina Ribeiro da Cruz

Escola Emanuel Pinheiro


Faz parte da minha vida e eu da sua história.
Hoje guardo na memória
Os momentos em que estudei
3º ano/5º ano
E em Magistério aqui me formei
Estou eu aqui de novo
Este mistério, não desvendei.

Será que é justiça
Dos momentos difíceis
Que aqui enfrentei?
Isso ao certo, não sei.

Refaço o mesmo caminho
Que um dia me fecharam
Mas o que está determinado
Passe o tempo que passar
Há de ser concretizado.

Voltei em tempo de glória
Continuo escrevendo minha história.
Sou professora neste momento
Trabalho com fé e alento
Agradecendo sempre a Deus
Por ter que recomeçar
Cada dia um novo dia
Com carinho e alegria
Pois sou grata eternamente
Por ser parte de mais uma história
Que serão novas histórias
Triunfantes de vitórias.

Minha escola querida
Tenho orgulho de ti
Pois os meus primeiros passos
Neste caminho que traço
Comecei foi bem aqui!

Sandra Regina Ribeiro da Cruz


PARA REFLETIR NO NATAL


TRÊS POEMAS DE NASSARY LEE BAHAR

Metáforas

É frágil como um enfeite natalino
É frágil como uma coluna comprometida
Como um ser que ainda não tem vida
É frágil, mas não como destino
É frágil como uma fada
cujas asas-manteiga pesam mais
muito mais do que os pensamentos seus
feito papelão ou castiçal de vidro

É frágil, é dolorido
feito nuvens no céu que se dissipam
feito as letras que se apagam
É frágil, muito frágil
e não sabe como ser cuidada
sem que se quebre, se desmonte, se desfaça

É frágil, enfadada e complicada
como tudo o que é belo e não se alcança
Nunca se alcança por completo
Nunca é teto
É simplesmente desintegração
Parte a parte do corpo
Uma atrás da outra
Vez por vez
Até que se torne vento

É frágil como crepe, algodão
Inexistente, delicada
Irreconhecível, nada humano
Plenitude sem matéria
desintegrando-se, enfeitada


Jantar de finados

Vi outra vez uma dor que conheço bem
Tão intensa
Tão estranha
Tão tamanha
Afundava igualmente em mim
Quantas vezes eu também já me maldisse?
Quantas vezes eu também quis não existisse?
E senti arranhar-lhe sem fim
E vi mesmo só uma dor que neguei
Naquele triste olhar: o meu maior conforto
Naquele peito vazio: o meu eterno alimento
Quis compartilhar nossas revoltas!
Vi-lhe lavando os pratos com suas lágrimas
Antes de vê-los limpos, secos, raspados (como nós)
Quis tomar um copo, pouco que fosse, de sua angústia
Esmurrar e não "bater" (como talheres)
Quis entender tanta coisa...
Por que ele sentou - comeu - e saiu?
Por que ela chorou - parou - e sorriu?
Para que vomitar nossas mágoas?
Se os restos nem mendigos querem?
São restos humanos
Recolhe-se a mesa
Recolhe-se a insignificância de sempre
Estica-se a toalha
Esticam-se as mãos para se agarrar com força
A barriga cheia
Tudo volta ao normal!


Cristal

O trabalho, quando bem concluído, cristalizado está.
As lágrimas, quando não mais participam presas da agonia no peito,
cristalizadas ficam no rosto.
O amor, quando mais forte e intransponível de obstáculos,
deixa de ser um cristal frágil. Vence!
A amizade verdadeira é um cristal precioso; uma jóia, que ao contrário do amor,
primeiro é forte, uma rocha, antes de arrebentar ao peso da discórdia.
A vida é um cristal pequeno e divino nos braços de uma mãe.
A vida, quando ultrapassa o aconchego do leite, é um cristal maravilhoso.
O qual temos medo de lapidar com erros, transformando-o em proveitoso leito.
As palavras belas, e com forças de leis, são cristais ao vento e aos corações com ouvido.
Os corais, fortalecendo as profundezas num tapete de abrigo colorido, são cristais...
A liberdade, sem mais, é um cristal no meio das escolhas.
O pensamento, livre, cristaliza nossas emoções, sentimentos.
Os enfeites natalinos, frágeis como cristais, são o que dão vida ao verde.
O perdão, quando maduro, é um cristal autêntico.
A rocha, como aquela velha amizade que concretiza cristais entre as pessoas,
Também reúne cristais de minerais no meio da Natureza.
A alma cristaliza em si o conjunto de pedras de tudo aquilo o que somos
como num colar de contas sem fecho.
O açúcar, quando cristalizado, é ainda mais doce...
A infância é um cristal de açúcar.
A saudade? Estou aqui do teu lado agora.
Mais presente do que um buquê.
Cristalizo em pétalas de boas lembranças.

Nassary Lee Bahar

BRUXA • UM POEMA DE ALEXANDRA JACOB



Nascidas em meio a tecnologia
Videntes, curandeiras, feiticeiras
Maceram ervas, curam dores d'alma

Decifram sonhos, leem mãos, ignorantes rotulam
Dizem ser manipuladoras, demônios
Sabias usam o tempo a seu favor

Intensas, bruxas usam todos os elementos
Velas representam fogo, aquecem
Águas lavam o corpo, descarregam o negativo
Terra, planta em nós esperança
Mantras, representam o ar que nos faz reconectar
A noite suas vozes levam amor a humanidade
Que perdida evoca seus próprios demônios - preconceitos.

BRUXA • UM POEMA DE MÛRE PIOGGIA



Mamãe, eu sou uma bruxa
acabei de saber
me descobri naquele
Diabo
com quem cometo
todos os pecados
e adoro pertencer

Mamãe, não dou pra ser
crente, não
já não tenho remissão
sou uma alma perdida

Perdida de amor
na saliva
da língua infernal que
me lambe
minha carne consome
faminta, mexendo bem fundo
na caldeira
entre minhas coxas

Mamãe, minha aura agora é
vermelha e tem gosto
daquilo que explode veias
quando chove no céu
da minha boca

Ah, mamãe, sinto tanto!
mas guarde sua crença
seu livro sapiência
pois prefiro o encanto

De ser bruxa
deusa, louca
ser um bicho ou outra coisa
mas ser tudo o que
o meu Demônio
intenta
manda
quer

Porque não há gozo maior
cultuado em meu ventre
do que ser

sua Mulher.